Poema Inca

Cântico da donzela infiel, presa ao cadafalso

Ó pai condor, agarra-me,
Irmão falcão, arrebata-me,
Anuncia-me à minha mãezinha.
Há já cinco dias
Que eu não como,
Que não bebo.
Pai, mensageiro,
Detentor dos sinais, mensageiro veloz,
Leva-me, leva a minha boca, o meu coraçãozinho,
Anuncia-me ao meu pai e à minha mãe.

Publicado por Huaman Poma de Ayala, século XVII
Tradução de lápis lazúli © a partir de versão francesa

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Publicado em:  on Setembro 20, 2009 at 8:22 pm Deixe um comentário

O ACTOR

Os focos estragaram-me os olhos e a memória.
Eu era Hamlet, Don Juan, um nobre cavaleiro
do tempo de seiscentos, sensual e aventureiro.
Deleitava-me o aplauso, esse saque da glória.

As fotos nos jornais, os cocktails, que formoso
era viver, e tão fácil. O mínimo roteiro
já se vai apagando. (A arte foi um luzeiro
mais caro do que a vida.) Fui rico e vicioso.

Gozei-me do que os homens apreciam: amores,
viajei pelo mundo, tive essa coisa vil:
a fama. E no fim não sei quem sou. Adeus,

o pano vai descer a última vez. As flores
que espero são amargas. Fica algo meu do ardil?
Em os palcos do mundo meu nome foi de um deus.

Felipe Benítez Reyes, Espanha (n. 1960), © tradução de babel

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Publicado em:  on Março 16, 2009 at 4:43 pm Comentários (2)
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Bailarina da Meia-noite

A Uma Bailarina Negra no “The Little Savoy”

Vinha nova
Da noite ao ritmo de jazz,
Lábios
Frescos como orvalho púrpura,
Seios
Como almofadas de todos os sonhos doces,
Quem esmagou
As uvas do prazer
E deitou o sumo
Sobre ti?

James Langston Hughes, © tradução de Babel.
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Publicado em:  on at 12:17 am Deixe um comentário
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NÃO QUERO PAZ, NÃO HÁ PAZ

Não quero paz, não há paz,
quero a minha solidão.
Quero o coração nu
para o deitar à rua,
quero ficar surdo-mudo,
que ninguém me visite,
que eu não veja ninguém,
e se houver quem sinta nojo, como eu,
que o engula.
Quero a minha solidão,
Não quero paz, não há paz.

Jaime Sabines, México, © tradução de lápis-lazúli

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Publicado em:  on Março 10, 2009 at 10:46 pm Deixe um comentário
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E O PARAÍSO?

«E o Paraíso? Existe um paraíso?»
«Creio que sim, minha senhora, mas os vinhos doces
ninguém  mais os quer.»

Eugenio Montale, © tradução de babel

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Publicado em:  on Dezembro 22, 2008 at 11:04 am Comentários (2)
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NÃO CORTES

Não cortes, tesoura, aquela figura,
sozinha na memória que se esvazia,
não faças do seu grande rosto à escuta
a minha névoa de sempre.

Um frio cala… Duro o golpe mutila.
E a acácia ferida sacode
a casca de cigarra
na primeira lama de Novembro.

Eugenio Montale, © tradução de babel

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Publicado em:  on Dezembro 21, 2008 at 9:45 pm Deixe um comentário
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A PARTIDA DE ANA

Onde ides, Ana? Fazei-mo saber,
E ensinai-me antes de partir
Como farei para que meus olhos calem
A dura pena do coração triste e mártir.
Eu sei como, não tendes de me aconselhar:
Tomareis meu coração, entrego-o;
Levá-lo-eis convosco para o libertar
Do luto que sofreria longe de vós, neste lugar;
E pois que sem coração não vivemos,
Entregar-me-eis o vosso, e então adeus.

Clément Marot (1496-1554), © tradução de lápis-lazúli

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Publicado em:  on Dezembro 20, 2008 at 4:46 pm Comentários (2)
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TEOLOGIA

Não, a serpente não
Seduziu Eva com a maçã.
Tudo isso é simplesmente
Uma alteração dos factos.

Adão comeu a maçã.
Eva comeu Adão.
A serpente comeu Eva.
Este é o escuro intestino.

A serpente, entretanto,
Esmói a refeição fora do paraíso ―
Sorrindo ao escutar
O apelo lamurioso de Deus.

Ted Hughes, © tradução de Babel

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Publicado em:  on Dezembro 10, 2008 at 6:26 pm Comentários (5)
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O CANHOTO

Não serve de consolo caminhar com uma mão na nossa, a arriscada florescência da carne de uma mão.
O obscurecimento da mão que nos aperta e nos conduz, inocente também, a olorosa mão em que juntamos e guardamos haveres não nos evita a ravina, o espinho, o fogo precoce, o cerco dos homens, essa mão preferida a todas as outras, mas subtrai-nos à duplicação da sombra, ao dia da noite. Ao dia brilhando por cima da noite, franqueado o seu limiar de agonia.

René Char, França, © tradução de lápis-lazúli

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Publicado em:  on Dezembro 8, 2008 at 12:10 pm Comentários (2)
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OS MEUS TRISTES CAPITÃES

Um a um aparecem na
escuridão: alguns amigos, e
alguns com nomes
históricos. Que tarde começam a brilhar!
mas antes de se apagarem levantam-se
e encarnam perfeitamente, todo

o passado os envolvendo como um
manto do caos. Eram homens
que viviam, penso, só para
renovar a força devastadora que
gastaram em cada convulsão ardente.
Fazem-mo lembrar, à distância agora.

De verdade, ainda não repousam,
mas agora que estão realmente
à parte, limpos de fracassos,
retirararam-se para uma órbita
e giram com desinteressada
e firme energia, como as estrelas.

Thom Gunn, © tradução de babel

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Publicado em:  on Dezembro 7, 2008 at 12:36 pm Comentários (9)
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