Aldeias de Pedra

As aldeias de Inglaterra construídas em pedra.
Uma catedral engarrafada na janela de um pub.
Vacas dispersas nos campos.
Monumentos a reis.

Um homem num fato roído pelas traças
vê ao longe um comboio dirigir-se, como tudo aqui, para o mar,
sorri à filha que vai para Este.
Ouve-se um apito.

E o céu sem fim sobre as telhas
cresce mais azul conforme o canto de um pássaro o enche.
E quanto mais claro se ouve o canto,
mais pequeno se torna o pássaro.

Joseph Brodsky, ex-URSS, Rússia (1940-1996), traduzido por Nuno Dempster.

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Publicado em: on 30/01/2012 at 13:52  Deixe um Comentário  
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Mapa do Novo Mundo

I – Arquipélagos

No fim desta frase, vai começar a chover.
À beira da chuva, uma vela.
Lentamente a vela irá perdendo de vista as ilhas;
A crença de uma raça inteira nos portos
afundar-se-á na neblina.
A guerra dos dez anos terminou.
O cabelo de Helena, uma nuvem gris.
Tróia, uma cova de cinza branca
junto do mar onde chuvisca.
A chuva retesa-se como as cordas de uma harpa.
Um homem de olhos nublados toma-a
e dedilha o primeiro verso da Odisseia .

Derek Walcott, Antilhas (n. 1930), traduzido por Nuno Dempster.

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Publicado em: on 25/01/2012 at 20:02  Deixe um Comentário  
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Não sei se por ti

Não sei se por ti
seria capaz de matar,
espero que não. Amo-te
e não pretendo excluir-me desse amor.

Além disso sinto orgulho
por salvar-te amiúde
de outros perigos: o trânsito,
os fantasmas do meio-dia,
as bebidas light…

Não me peças violência
contra terceiros, amor, que tu e eu
já brigamos quanto baste e
não o fazemos nada mal.

José Ignacio Moreno, Espanha, tradução de Soledade Santos

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Publicado em: on 23/01/2012 at 14:05  Comentários (2)  
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Anche tu sei l’amore

Também tu és o amor.
És de sangue e de terra
como os outros. Caminhas
como quem não sai
da porta de casa.
Olhas como quem espera
e não vê. És terra
que sofre e cala.
Há sobressaltos e cansaços,
há palavras ― caminhas
na expectativa. O amor
é o teu sangue ― não mais.

Cesare Pavese, Itália (1908-1950), tradução de Nuno Dempster.

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Publicado em: on 22/01/2012 at 20:22  Deixe um Comentário  
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Planície

Lago.
O lago.
Inundadas
as margens.
Sob a nuvem
o guindaste. Branca, ilumina
os povos de pastores
há milénios. Com o vento

vim monte acima
e aqui viverei. Era caçador
mas a erva
aprisionou-me.

Ensina-me a falar, erva,
ensina-me a estar morto e a escutar
por muito tempo, e a falar, pedra,
ensina-me a ficar aqui, água,
e depois, vento, não perguntes por mim.

Johannes Bobroswski, ex-RDA (1917-1965), tradução de Nuno Dempster.

Traduzido para aqui.

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Publicado em: on 22/01/2012 at 00:05  Deixe um Comentário  
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Quem és tu, pequeno eu…

Quem és tu, pequeno eu

(de cinco ou seis anos)
que observas de uma

janela alta: o pôr-do-sol

dourado de Novembro

(e sentes: se o dia
tem que se mudar em noite

forma tão linda não haveria)

e. e. cummings, EUA (1894-1962), tradução de Nuno Dempster.

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Publicado em: on 19/01/2012 at 18:42  Deixe um Comentário  
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Ao Fracasso

Não vens de forma dramática, com dragões
Que se empinam e erguem a minha vida entre as garras
E me atiram esquartejado para junto das carroças,
Os cavalos em pânico; nem como uma cláusula
visivelmente preparada para lembrar o que pode ser perdido,
Que despesas de bolso devem ser suportadas
Em gastos extraordinários; nem como um fantasma gélido
Que é visto, certas manhãs, a correr por um relvado.

É nestas tardes sem sol que descubro
Teres-te instalado no meu espaço como um aborrecimento.
Os castanheiros endureceram de silêncio. Estou
Ciente de que os dias passam mais rápido que antes,
O cheiro a bolor também. E quando ficam para trás
Parecem ruínas. Estiveste aqui algum tempo.

Philip Larkin, Inglaterra (1922-85), tradução de Nuno Dempster

Traduzido para aqui.

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Publicado em: on 10/01/2012 at 00:17  Deixe um Comentário  
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Patente em Curso #0226. Escreve um poema numa fatia de pão…

escreve um poema numa fatia de pão,
coloca-o na torradeira
e espera que o detector de incêndios dê o alarme
quando os bombeiros chegarem
cumprimenta-os à entrada
com um lenço na boca
diz o teu poema
convida-os para um chá com torradas

Craig Czury, EUA (n. 1951), tradução de Nuno Dempster.

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Publicado em: on 03/01/2012 at 21:40  Deixe um Comentário  
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A ordem legítima é por vezes desumana

Aqueles que partilham lembranças
regressam à solidão, mal o silêncio se instala.
A erva que os afaga desponta da sua fidelidade.

Que dizias tu? Falavas-me de um amor tão longínquo
Que remontava à tua infância.
Tantos estratagemas a memória tece!

René Char (1907-1988), França,
tradução de Soledade Santos

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Publicado em: on 14/12/2011 at 21:26  Comentários (4)  
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A MUSA

Quando noite fora aguardo a sua chegada,
Parece que a minha vida se suspende.
Que são honras, juventude ou liberdade
ante a doce hóspede que segura uma flauta?

Ei-la, já entrou em casa. Tira o véu
E observa-me com atenção. Digo-lhe:
«Foste tu quem sugeriu a Dante as páginas
Do Inferno?» E ela responde: «Fui.»

Anna Akhmátova, Rússia (1889-1966), vertido do inglês por Nuno Dempster, com passagem pelo russo online.

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Publicado em: on 14/12/2011 at 19:41  Deixe um Comentário  
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