O ACTOR

Os focos estragaram-me os olhos e a memória.
Eu era Hamlet, Don Juan, um nobre cavaleiro
do tempo de seiscentos, sensual e aventureiro.
Deleitava-me o aplauso, esse saque da glória.

As fotos nos jornais, os cocktails, que formoso
era viver, e tão fácil. O mínimo roteiro
já se vai apagando. (A arte foi um luzeiro
mais caro do que a vida.) Fui rico e vicioso.

Gozei-me do que os homens apreciam: amores,
viajei pelo mundo, tive essa coisa vil:
a fama. E no fim não sei quem sou. Adeus,

o pano vai descer a última vez. As flores
que espero são amargas. Fica algo meu do ardil?
Em os palcos do mundo meu nome foi de um deus.

Felipe Benítez Reyes, Espanha (n. 1960), © tradução de babel

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Publicado em: on Março 16, 2009 at 4:43 pm Comentários (2)
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