Os focos estragaram-me os olhos e a memória.
Eu era Hamlet, Don Juan, um nobre cavaleiro
do tempo de seiscentos, sensual e aventureiro.
Deleitava-me o aplauso, esse saque da glória.
As fotos nos jornais, os cocktails, que formoso
era viver, e tão fácil. O mínimo roteiro
já se vai apagando. (A arte foi um luzeiro
mais caro do que a vida.) Fui rico e vicioso.
Gozei-me do que os homens apreciam: amores,
viajei pelo mundo, tive essa coisa vil:
a fama. E no fim não sei quem sou. Adeus,
o pano vai descer a última vez. As flores
que espero são amargas. Fica algo meu do ardil?
Em os palcos do mundo meu nome foi de um deus.
Felipe Benítez Reyes, Espanha (n. 1960), © tradução de babel