Canção Víbora

Tem paciência comigo.

Porque às vezes o mundo,
a víbora do tempo e do passado,
cabe entre duas palavras.

Se a pele se faz noite,
se as cinzas voltam aos lábios,
cabe entre duas palavras.

É verdade e eu sei-o,
uma estrela apagada que cruza o universo
com o seu punhal de frio.

E rasteja pela vida,
por caminhos sem ninguém, por cidades,
com o seu punhal de esquecimento.

Através do amor,
até mesmo por cima da felicidade,
cabe entre duas palavras.

A víbora do medo,
a víbora do medo derrotado,
o meu calor e o frio dela.

E fica no peito,
aninhada na sombra, até ao amanhecer.
Tem paciência comigo.

Porque o mundo é assim e eu venho ferido,
tem paciência comigo.

Luis García Montero, tradução de lápis-lazúli

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Publicado em:  on Outubro 24, 2008 at 12:11 pm Deixe um Comentário
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