Canção Víbora

Tem paciência comigo.

Porque às vezes o mundo,
a víbora do tempo e do passado,
cabe entre duas palavras.

Se a pele se faz noite,
se as cinzas voltam aos lábios,
cabe entre duas palavras.

É verdade e eu sei-o,
uma estrela apagada que cruza o universo
com o seu punhal de frio.

E rasteja pela vida,
por caminhos sem ninguém, por cidades,
com o seu punhal de esquecimento.

Através do amor,
até mesmo por cima da felicidade,
cabe entre duas palavras.

A víbora do medo,
a víbora do medo derrotado,
o meu calor e o frio dela.

E fica no peito,
aninhada na sombra, até ao amanhecer.
Tem paciência comigo.

Porque o mundo é assim e eu venho ferido,
tem paciência comigo.

Luis García Montero (n. 1958), Espanha,
tradução de Soledade Santos

CANCÍON VÍBORA

Ten paciencia conmigo.

Poque a veces el mundo,
la víbora del tiempo y del passado,
cabe entre dos palavras.

Si la piel se hace noche,
si vulven las cenizas a los labios,
cabe entre dos palabras.

De verdad, yo lo sé,
una estrella apagada que cruza el universo
con su puñal de frío.

Y repta por la vida,
por caminos sin nadie, por ciudades,
con su puñal de olvido.

A través del amor,
incluso por encima de la felicidad,
cabe entre dos palabras.

La víbora del miedo,
la víbora del miedo derrotado,
mi calor y su frío.

Y se queda en el pecho,
anidada en la sombra, hasta el amanecer.
Ten paciencia conmigo.

Porque el mundo es así, y vengo herido,
ten paciencia conmigo.

Luis García Montero

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