DOS PROVÉRBIOS E CANTARES

I

Nunca persegui a glória
nem quis deixar na memória
da gente a minha canção.
Eu amo os mundos subtis,
delicados e gentis,
como bolas de sabão.
Gosto de vê-los pintar-se
de sol e romã, voar
sob o céu azul, vibrar
subitamente e quebrar-se.

XXIX

Caminhante, é o teu rasto
o caminho, e nada mais;
caminhante, onde o caminho?
o caminho faz-se a andar.
A andar se faz o caminho
e ao olhar-se para trás
vê-se o caminho que nunca
se há-de volver a pisar.
Caminhante, onde o caminho?
Só há vestígios no mar.

XLIV

Tudo passa e tudo fica,
mas para nós é passar,
passar fazendo caminhos,
caminhos por sobre o mar.

Antonio Machado, Espanha (1875-1939), tradução de Nuno Dempster

I

Nunca perseguí la gloria
ni dejar en la memoria
de los hombres mi canción;
yo amo los mundos sutiles,
ingrávidos y gentiles
como pompas de jabón.
Me gusta verlos pintarse
de sol y grana, volar
bajo el cielo azul, temblar
súbitmente y quebrarse.

XXIX

Caminante, son tus huellas
el camino, y nada más;
caminante, no hay camino,
se hace camino al andar.
Al andar se hace camino,
y al volver la vista atrás
se ve la senda que nunca
se ha de volver a pisar.
Caminante, no hay camino,
sino estelas en la mar.

XLIV

Todo pasa y todo queda,
pero lo nuestro es pasar,
pasar haciendo caminos,
caminos sobre el mar…

Antonio Machado

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