37 PERGUNTAS AO MEU ÚNICO CONTACTO DO OUTRO LADO DA FRONTEIRA

Diz-me, É feliz a gente além do outro lado da fronteira?/ O seu amor encontra resposta em vinte ou vinte e dois por cento dos casos, ou como aqui/ são mudos os telefones, corações desertos noite após noite/ corações desertos no último quarto do labirinto?

Há no vosso reino, de entre os vossos territórios, algum lugar/ chamado Greenland ou Groenlândia? São sombrios os seus vales?/ Há bombas de gasolina da companhia Shell? Aproximam-se as borboletas das conchas amarelas? Nem sequer no inverno?/ Nunca existiu aí um espião chamado Cinzas?

Diz-me, É feliz a gente além do outro lado da fronteira?/ Nunca sonhais com caranguejos? E com meninos cegos?/ Recordais alguma vez o ciclista Tom Simpson, como ficou asfixiado no Aubisque? Que me dizeis da imagem do seu maillot/ como um tabuleiro de xadrês partido na gravilha? No outro lado da fronteira, a folha protege o fruto? Há morangos?

Têm os peixes abissais pressentimentos/ a respeito do sol? Sabem distinguir a palavra Luz da palavra Sombra?/ Aqueles que ao apanhar o combóio, desapareceram na transparência da tarde/ Até quando conservarão a ilusão de que poderiam não ter partido?

Disseram-me que para os pássaros não há outro destino senão o vento/ e que há barcos que nunca alcançam um porto./ Quando falais do destino, A que vos referis mais precisamente?/ Às vantagens de um emprego seguro? Talvez ao que se come com molho de laranja? Nunca rezais pelas caravanas do deserto?

São muitos, sois muitos os habitantes do outro lado da fronteira?/ Esta gente que vejo todos os dias na rua vive lá?

Bernardo Atxaga, Espanha (Euskadi, n.1951), tradução de babel

37 PERGUNTAS A MI ÚNICO CONTACTO AL OTRO LADO DE LA FRONTERA

Dime, Es feliz la gente allá al otro lado de la frontera?/ Encuentra su amor respuesta en un veinte o veintidós por ciento de los casos, o como aquí/ son mudos los teléfonos, corazones desiertos noche tras noche/ corazones desiertos en la última habitación del laberinto?

Hay en vuestro reino, entre vuestros territorios, algún lugar/ llamado Greenland o Groenlandia? Son sombríos sus valies?/ Hay gasolineras de la compara Shell? Se acercan Ias mariposas hasta las conchas amarillas? Ni aun en invierno?/ Nunca existió allí un espía llamado Cenizas?

Dime, Es feliz la gente allá al otro lado de la frontera?/ Nunca soñáis con cangrejos?Y con niños ciegos?/ Os acordáis alguna vez dei ciclista Tom Simpson, de cómo se asfixio en el Aubisque? Qué me decís de la imagen de su maillot/ como una tabla de ajedrez rota sobre la gravilla? Al otro lado de la frontera, protege la hoja a fruto? Hay fresas?

Tienen los peces abisales presentimientos/ acerca del sol? Saben distinguir la palabra Luz de la palabra Sombra?/ Aquellos que al tomar el tren, desaparecieron en la transparência de la tarde, / Hasta cuándo conservaron la ilusión de que podrían quedarse?

Se me ha dicho que para los pájaros no hay otro destino que el viento/ y que hay barcos que jamás alcanzan un puerto./ Cuando vosotros habláis del destino, A qué os referís exactamente?/ A las ventajas de un trabajo seguro? Quizá a lo que se come con salsa de naranja? Nunca rezáis por las caravanas del desierto?

Son muchos, sois muchos los habitantes del otro lado de la frontera?/ Esta gente que veo todos los días por la calle, vive allá?

Bernardo Ataxaga

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