OS MEUS TRISTES CAPITÃES

Um a um aparecem na
escuridão: alguns amigos, e
alguns com nomes
históricos. Que tarde começam a brilhar!
mas antes de se apagarem levantam-se
e encarnam perfeitamente, todo

o passado os envolvendo como um
manto do caos. Eram homens
que, pensei, viveram só para
renovar a força devastadora
gasta em cada convulsão ardente.
Fazem-mo lembrar, agora à distância .

É certo, ainda não descansam,
mas hoje estão de facto
à parte, limpos de fracassos,
retiram-se para uma órbita
e giram com desinteressada
e firme energia, como as estrelas.

Thom Gunn, Inglaterra (1929-2004) tradução de Nuno Dempster

MY SAD CAPTAINS

One by one they appear in
the darkness: a few friends, and
a few with historical
names. How late they start to shine!
but before they fade they stand
perfectly embodied, all

the past lapping them like a
cloak of chaos. They were men
who, I thought, lived only to
renew the wasteful force they
spent with each hot convulsion.
They remind me, distant now.

True, they are not at rest yet,
but now they are indeed
apart, winnowed from failures,
they withdraw to an orbit
and turn with disinterested
hard energy, like the stars.

Thom Gunn

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9 comentários a “OS MEUS TRISTES CAPITÃES

  1. babel, sugiro a utilização do verbo “encarnar” como intransitivo: espíritos que se materializam, ganham carne, corpo. Basta mudar o lugar da vírgula e a oração não finita gerundiva funcionará muito bem, exprimindo uma relação temporal de simultaneidade:

    «e encarnam perfeitamente, //o passado envolvendo-os como um manto do caos.»

    Que tal? É um belo poema!

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  2. Tive como que uma oclusão mental nesse preciso ponto, o que me dificultou a clareza. O problema era traduzir perfectly embodied, à letra perfeitamente encarnado, soava muito mal por causa do outro encarnado, a cor, andei às voltas, primeiro com o encarnado – até pensei em reencarnado…- e depois fui para a forma verbal transitiva, já “tocado” pela distinção que quis fazer à viva força, embora na forma verbal não houvesse nenhuma distinção a fazer. Logo a seguir fiquei a olhar para o gerúndio envolvendo, desagradado, pensei inclusivamente numa oração relativa para o substituir, que os envolve, mas se não gosto por aí além de gerúndios nessa posição, também não gosto do que em excesso, ou seja, utilizo-o o menos que posso. Foi esta, lembro-me, a única dificuldade que senti em traduzir o poema, uma dificuldade formal.

    Fica pois a sua sugestão a que acrescento o all traduzido que me ficou no teclado – porque já não há tinteiros.

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  3. Desta vez não concordo, Lápis-lazúli. Todo o passado os envolvendo confere mais intensidade ao passado e ao verso do que o que sugere agora, porque antecipa o adjectivo todo, todo torna-se mais importante nessa posição. O mesmo se passa com a próclise do clítico os – estou a dizer alguma asneira gramatical? 🙂 – que vem intensificar o gerúndio envolvendo. O verso fica com muito mais vida, a meu ver. Ora compare:

    todo o passado os envolvendo
    o passado inteiro envolvendo-os

    Mas também há, no ritmo de cada verso, dois ouvidos diferentes na escolha, embora me pareça que o principal é a vivacidade com que verso fica.

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  4. a tradução é um mundo interessante, como muito que se lhe diga. eu não sou da área das letras, mas sei bem, como se vê nos comentários que aqui se lêem, o quanto há a dizer acerca delas.

    espero um dia destes ler a tradução de um poema meu. linkado.

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  5. É também uma questão de ouvido (por isso omitiria o quantificador que especifica “passado”, pois a ideia de totalidade permanece), mas é sobretudo questão de não forçar a sintaxe: desagrada-me a anteposição do clítico e não vejo que acrescente em vivacidade ao verso. Mas a cada um a sua tradução, babel.

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  6. Lápis-lazúli, pus todo no fim da primeira estrofe como no original, na esperança de lhe fazer a vontade quanto à posição do clítico, mas soa-me mal. Dizemos comummente Todo o mundo o envergonhou, tudo o aborrece. Esta questão da posição dos clíticos, li algures, ocupa um calhamaço inteiro, julgo que de Fidelino de Figueiredo, e estou certo de que contempla a sua preferência. Só não o faço porque não me soa, mesmo com o todo separado.

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