Canção de Inverno

      Cantam. Cantam.
Onde cantam os pássaros que cantam?
      Choveu. Ainda os ramos
estão sem folhas novas. Cantam. Cantam
os pássaros. E onde cantam
os pássaros que cantam?
      Não tenho pássaros em jaulas.
Não há miúdos que os vendam. Cantam.
O vale está muito longe. Nada…
      Eu não sei onde cantam
os pássaros ― cantam, cantam –,
os pássaros que cantam.

Juan Ramón Jiménez, Espanha (1881-1958), tradução de Nuno Dempster

Canción de Invierno

      Cantan. Cantan.
¿Dónde cantan los pájaros que cantan?
      Ha llovido. Aún las ramas
están sin hojas nuevas. Cantan. Cantan
los pájaros. ¿En dónde cantan
los pájaros que cantan?
      No tengo pájaros en jaulas.
No hay niños que los vendan. Cantan.
El valle está muy lejos. Nada…
      Yo no sé dónde cantan
los pájaros ― cantan, cantan ―,
los pájaros que cantan.

Juan Ramón Jiménez, Hueva, Espanha

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Nota: Este poema tem a última forma que o poeta lhe deu na sua Segunda Antologia Poética, de 1922. Na Web, aparece dividido em estrofes que se iniciam onde os versos aqui avançam. José Bento, que traduziu e reuniu poemas de JRJ na sua Antologia Poética, apresenta-o também em quatro estrofes. Não tendo eu esta antologia, mas a do próprio JRJ, verifiquei, depois de feita esta tradução, que só variava em duas palavras da de José Bento. Onde traduzo à letra Não tenho pássaros em jaulas (“No tengo pájaros en jaulas“), José Bento traduz “Não tenho pássaros presos“; onde traduzo Não há miúdos que os vendam (“No hay niños que los vendan“), José Bento prefere “Não há meninos que os vendam“. À parte estas duas diferenças, a tradução é tão simples que justifica a coincidência do restante. O contrário é que seria de espantar.

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