Ab Ovo

No fundo, deveria existir um idioma
em que a palavra”ovo” se reduzisse
apenas a O. O Italiano é o mais próximo,
com uova, claro. É por isso que Alighieri tinha
o ovo como o mais saudável alimento, dividindo a predilecção
com sopranos e tenores, cujo torso em forma de pêra,
afinal, olhando bem, exprime “ópera”.
O mesmo se aplica ao Romântico genuíno, isto é,
a poetas alemães que iniciam quase todos os versos
do mesmo modo que começam o pequeno-almoço,
ou aos igualmente convencidos matemáticos
que chocam o infinito disposto com cautela,
cujos zeros imaculados nunca hão-de quebrar a casca.

Joseph Brodsky, ex-URSS, Rússia (1940-1996), traduzido por Nuno Dempster.

Traduzido para aqui

Ultimately, there should be a language
in which the word “egg” is reduced to O
entirely. The Italian comes the closest,
naturally, with its uova. That’s why Alighieri thought
it the healthiest food, sharing the predilection
with sopranos and tenors whose pear-like torsos
in the final analysis embody “opera.”
The same pertains to the truly Romantic, that is,
German poets, with practically every line
starting the way they’d begin a breakfast,
or to the equaly cocky mathematicians
brooding over their regularly laid infinity,
whose immaculate zeros won’t ever hatch.

Joseph Brodsky

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