Sozinho com Todos

a carne cobre o osso
e põe-se um cérebro
dentro e
às vezes uma alma,
e as mulheres atiram
jarras contra as paredes
e os homens bebem
de mais
e ninguém encontra o
outro
mas mantêm-se
à procura
seduzindo dentro e fora
da cama.
A carne cobre
o osso e
procura
mais do que
carne.

não há saída
afinal:
fomos todos agarrados
por um destino
singular.

ninguém jamais encontra
o outro.

as lixeiras da cidade enchem-se
os ferros-velhos enchem-se
os manicómios enchem-se
os hospitais enchem-se
os cemitérios enchem-se

nada mais
se enche.

Joseph Brodsky, Rússia (1940-1996), tradução de Nuno Dempster.

Alone with Everybody

the flesh covers the bone
and they put a mind
in there and
sometimes a soul,
and the women break
vases against the walls
and the men drink too
much
and nobody finds the
one
but keep
looking
crawling in and out
of beds.
flesh covers
the bone and the
flesh searches
for more than
flesh.

there’s no chance
at all:
we are all trapped
by a singular
fate.

nobody ever finds
the one.

the city dumps fill
the junkyards fill
the madhouses fill
the hospitals fill
the graveyards fill

nothing else
fills.

Joseph Brodsky

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4 comentários a “Sozinho com Todos

  1. Obrigado, Ana Assunção. Traduzir tem o duplo prazer do desafio e da revelação que é vermo-nos noutro poeta, não poucas vezes adivinhando por sinais a génese íntima do poema que se está a mudar.

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    • Daniel, tem aqui mais três poemas de Brodsky, e considero, nesses outros três, “Ulyses to Thelemacus” um poema de grande qualidade. Continuarei a traduzir Brodsky. O seu comentário fez-me recordar uma das suas predilecções poéticas, Edgar Lee Masters, e na entrada acima traduzo-lhe um poema dele e ofereço-lho neste comentário, já que – sorrio – não é canónico oferecer traduções. E como gosto também do poeta, haverá ocasião para mais. Este pertence a “Spoon River Antology”. Edgar Lee Masters foi editado em Portugal apenas como uma colectânea parcial de poemas daquela reunião original, sob o título “Spoon River, Uma Antologia”, em tradução excelente de José Miguel Silva e edição de Relógio d’Água, Lisboa, 2003. O poema “Lois Spears” não consta desse livro. Abraço.

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