Vou escrever um livro

Vou escrever um livro que fale das (pouquíssimas)
mulheres da minha vida. Da minha primeira namorada,
que me ensinou o amor e as portas secretas
do céu e do inferno; de Isabel que se foi
para o país dos sonhos com o pequeno Nemo,
porque passava muito mal aqui; de Margarita,
recordando uns “jeans” brancos e umas nódoas
estrategicamente distribuídas; de Ginebra
que deixou Lanzarote teso por culpa minha
e fundou uma família respeitável à minha custa;
de Susana que continua tão bonita como então;
de Macarena, um doce que me amargou a vida
dois verões inteiros; de Carmen que era bruxa
e via o futuro com olhos de rapaz;
da rede que segurava os cabelos de Paula
quando me apaixonei pela sua melancolia;
de Arancha, de Paloma, de Marta e de Teresa;
dos seus beijos que içaram a bandeira do triunfo
sobre a negra morte, e também do seu gelado
desdém, que encarcerou tantas vezes o meu espírito
na triste masmorra da desesperança.
Vou escrever um livro que fale das mulheres
que escreveram a minha vida.

Luis Alberto de Cuenca, Espanha (n. 1950), tradução para aqui de Nuno Dempster.

Voy a escribir un libro

Voy a escribir un libro que hable de las (poquísimas)
mujeres de mi vida. De mi primera novia,
que me enseñó el amor y las puertas secretas
del cielo y del infierno; de Isabel, que se fue
al país de los sueños con el pequeño Nemo,
porque aquí lo pasaba fatal; de Margarita,
recordando unos “jeans” brancos y unos lunares
estrategicamente dispuestos; de Ginebra,
que dejó a Lanzarote plantado por mi culpa
y fundó una familia respetable a mi costa;
de Susana, que sigue tan guapa como entonces;
de Macarena, un dulce que me amargó la vida
dos veranos enteros; de Carmen, que era bruja
y veía el futuro con ojos de muchacho;
de la red que guardaba los cabellos de Paula
cuando me enamore de su melancolia;
de Arancha, de Paloma, de Marta y de Teresa;
de sus besos, que izaron la bandera del triunfo
sobre la negra muerte, y también de su helado
desdén, que recluyó tantas veces mi espíritu
en la triste mazmorra de la desesperança.
Voy a escribir un libro que hable de las mujeres
que han escrito mi vida.

Luis Alberto de Cuenca

Anúncios