Três raposas na extremidade do campo ao crepúsculo

Uma delas correu,
de nariz no chão,
sombra cor de ferrugem,
não estava a caçar nem a brincar.

Aquela deteve-se; sentou-se; deitou-se; voltou a levantar-se.

A outra nunca se mexeu,
excepto para virar ligeiramente a cabeça, enquanto caminhávamos.

Até que nos aproximámos de mais
e elas sumiram-se.
Os bosques recolheram-nas como se nunca tivessem existido.

Gostaria de me ter lembrado de encostar o rosto à erva.

Continuámos a caminhar,
conversando como fazem os estranhos ao tornar-se amigos.

Há cada vez mais coisas que não digo a ninguém,
seja a estranhos ou amantes.
Isto desliza para o coração
sem pressa, como se nunca tivesse existido.

E no entanto, entre as árvores, algo mudou.

Algo olha para trás do meio das árvores
e conhece-me pelo que sou.

Jane Hirshfield, EUA, n. 1953
tradução de Soledade Santos

 

THREE FOXES BY THE EDGE OF THE FIELD AT TWILIGHT

One ran,
her nose to the ground,
a rusty shadow
neither hunting nor playing.

One stood; sat; lay down; stood again.

One never moved,
except to turn her head a little as we walked.

Finally we drew too close,
and they vanished.
The woods took them back as if they had never been.

I wish I had thought to put my face to the grass.

We kept on walking,
speaking as strangers do when becoming friends.

There is more and more I tell no one,
strangers nor loves.
This slips into the heart
without hurry, as if it had never been.
And yet, among the trees, something has changed.

Something looks back from the trees,
and knows me for who I am.

Jane Hirshfield, EUA, n. 1953

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