A idade de ouro

Aquilo que o tempo leve
que seja tanto
quanto o tempo nos deu,
prenda não merecida,
abandonando a memória na inocência
da vida já cumprida, porque nada
fere mais e mais fundo que a lembrança:
enquanto subsista uma noite na memória,
essa noite é a Noite
e essa intensa memória a Memória.

O tempo leve tudo
o que queira levar,
porque tudo foi seu desde sempre.

Que o tempo desvaneça
o ouro delinquente do amor
e a imagem hermética daquilo
que chamavas passado
                             ― e era apenas
ontem: a fugitiva
idade de não ter
idade para o passado.

Idade de Baudelaire e de miúdas
que adquiriam noções da vida
nas últimas filas dos cinemas
e nesses velhos cinemas do pós-guerra
convertidos
em lugares de dança que fechavam
quando o céu queria amanhecer.
Amanheceres de domingo,
voltando a casa com
um copo ainda na mão
e tabaco esquisito no bolso,
a essa hora em que abriam os cafés
e as damas de caridade montavam mesas
com cartazes de meninos moribundos.

E era a morta luz que amanhecia
a metáfora gelada e a ilusão exacta de estar queimando
os templos da eterna juventude.

Mas no seu carro fúnebre
o tempo ia admitindo passageiros.

E as naves queimadas são cinza
e muito pouco de eterno
teve a juventude.

Assim que arraste tudo, o tempo
que leve no seu vórtice a memória,
                                                       deixando
um vazio perfeito no passado.

Porque toda a recordação
acaba corrompendo-se no presente
e este presente já
de pouco vai servir-nos.

De pouco vai servir-nos
o saber que houve um tempo em que a vida
valia o peso em ouro.

Porque a vida coloca
a casa no passado.

E esta casa sombria não parece a nossa.

Felipe Benítez Reyes, Espanha (n.1960), tradução de Nuno Dempster.


LA EDAD DE ORO

Lo que el tiempo se lleve
que sea tanto
como aquello que el tiempo nos dio,
regalo inmerecido,
dejando la memoria en la inocência
de la vida cumplida, porque nada
hiere más y más hondo que el recuerdo:
mientras dure una noche en la memoria,
esa noche es la Noche
y esa intensa memoria la Memoria.

Llévese el tiempo todo
lo que quiera lievarse,
porque todo fue suyo desde siempre,

Que desvanezca el tiempo
el oro delincuente del amor
y la imagen hermética de aquello
que llamabas pasado
                             ― y era apenas
ayer: la fugitiva
edad de no tener
edad para el pasado.

Edad de Baudelaire y de muchachas
que adquirían nociones de la vida
en las últimas filas de los cines
y en esos viejos cines de posguerra
convertidos
en locales de baile que cerraban
cuando el cielo queria amanecer.
Amaneceres de domingo,
volviendo a casa con
un vaso aún en la mano
y con tabaco extraño en el bolsillo,
a esa hora en que abrian los cafés
y Ias damas de caridad montaban mesas
con carteles de niños moribundos.

Y era la muerta luz que amanecia
la metáfora helada y la exacta ilusión de estar quemando
las naves de la eterna juventud.

Pero en su coche fúnebre
el tiempo iba admitiendo pasajeros.

Y las naves quemadas son ceniza,
y muy poco de eterna
tuvo Ia juventud.

Así que arrastre todo, que se lleve
en su vértigo el tiempo Ia memoria,
                                                       dejando
un vacío perfecto en el pasado.

Porque todo recuerdo
se acaba corrompiendo en el presente.
Y este presente ya
de poco va a servirmos.

De poco va a servirmos
el saber que hubo un tiempo en que la vida
valia su peso en oro.

Porque Ia vida pone
su casa en el pasado.

Y esta casa sombria no parece la nuestra.

Felipe Benítez Reyes

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