Opero o meu próprio coração

Opero o meu próprio coração, orientando-me pelas ilustrações de antigos livros de anatomia.

Como se esperava, no interior há uma sujidade de dar pena e quando por um momento consigo  a atenção do público, anuncio ao microfone que os lobisomens são uma espécie extinta, que a Transilvânia abandonou a União Europeia, falo de Bleuler*, da sua nomenclatura e dos contra-interrogatórios inoportunos, digo que uma cabeleira se assemelha a um monte de feno e que os meus amantes…

Neste ponto alguém me interrompe, passa uma esponja sobre o todo e imobiliza-me solidamente as mãos, mas eu começo outra vez a contar:

Que na verdade é tudo muito fácil de suportar, o êxtase, como a trivialidade dos anos magros, estar sozinha, ou ser rainha, abdicar, coroar-se a si mesma, abdicar…

Torild Wardenær (n. 1951), Noruega, tradução de Soledade Santos, a partir da versão francesa

* Bleuler, psiquiatra suiço (1857-1939) que nomeou a esquizofrenia.

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J’opère mon propre cœur d’après les planches des vieux bouquins d’anatomie

J’opère mon propre cœur d’après les planches des vieux bouquins d’anatomie.

Comme prévu, il y a là-dedans une saleté à faire pitié, et quand j’obtiens un moment d’attention du public j’annonce au micro que les loups-garous sont une race éteinte, que la Transylvanie a quitté l’Union Européenne, je parle de Bleuler, de sa nomenclature et des contre-interrogatoires inopportuns, je dis qu’une chevelure est pareille à une meule de foin, et que mes amants…

Ici quelqu’un m’arrête éponge le tout et me tient solidement les mains, mais ensuite je me remets à raconter:

Qu’ en vérité tout est tellement facile à supporter, l’extase comme l’ordinaire des années maigres, être seule, être reine, abdiquer, se couronner soi-même, abdiquer…

Torild Wardenær, 7 poèmes traduits du norvégien par Anne-marie Soulier

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