Aldeia

Este ofício artesanal de cultivar palavras
herdei-o de mestres que partiam
a navegar pela linguagem.
Vi como acenderam o forno e o destino.
Amassaram os verbos,
sonhavam a madeira.
Vi também como o velho falava entre os jovens.

Por isso entendo agora
o que me diz o pescador,
o modo de pensar do camponês,
a voz azul das carpintarias,
os olhos de quem vela uma criança ou um doente.

É a cumplicidade dos ofícios
que trabalham o mundo
e obedecem às leis do dia e da noite,
à luz do sol e da lua.

Do outro lado da aldeia,
estende-se hoje o inferno
de uma língua bárbara:
prémio de risco, bónus, resgates, interesses,
banqueiros, fundos de investimento.
A linguagem tóxica soa
como as trombetas de um exército ignóbil,
como as armas dos assassinos.

Luis García Montero (Espanha, 1958), tradução de Soledade Santos

                   ALDEA

                        A Rodolfo Benito

Este ofício artesano de cultivar palavras
lo heredé de maestros que salían
a navegar por el languaje.
Yo vi como encendieron el horno y el destino.
Amasaron los verbos,
Soñaban la madera.
Vi también como el viejo hablaba entre los jóvenes.

Por eso entiendo ahora
lo que me dice el pescador,
el modo de pensar del campesino,
la voz azul de las carpinterías,
los ojos del que mira a un niño o a un enfermo.

Es la complicidad de los oficios
Que trabajan el mundo
Y obedecen las leyes del día y de la noche,
La luz del sol y de la luna.

Al otro lado de la aldea,
hoy se extiende el infierno
de una lengua de bárbaros:
prima de riesgo, bonos, rescates, intereses,
banqueros, fondos de inversiones.
Suena el lenguaje tóxico
igual que las trompetas de un ejército innoble,
como las armas de los asesinos.

Luis García Montero, A Pie de Calle, Interrogante Editorial, Rota, 2013

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2 comentários a “Aldeia

  1. Maravilha de poema, maravilha de trabalho o vosso, seu e do Nuno. “O ofício artesanal de cultivar palavras…”. Não conhecia .
    Beijos

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    • É do último livro dele, na verdade uma plaquete que me chegou pelo correio esta semana. Diz-nos das nossas inquietações e dessa herança que partilhamos, a Ana e tantos de nós, o amor ao ofício artesanal das palavras.
      Um beijo
      Soledade

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