Insanas histórias da vida

Insanas histórias da vida,
As vozes todas caladas
Resta o som eterno do sangue.

Erguidos sobre os desastres das guerras
Luzem os detritos vãos do mundo,
O céu repleto de fantasmas da aurora.

Escondido no nevoeiro das cidades
O medo desloca as engrenagens do sonho.
Um dedo descodifica a linguagem morse
Das febres profundas,
Ladainha dos oráculos perdidos.

Tudo será reconstruído sob os nossos passos
Ao grito único da manhã
E as ruínas iluminar-se-ão de madrugada.

Madrugada, primeira e dilacerante madrugada
Que do nada constrói o dia.

Albert Ayguesparse (Bélgica, 1900-1996), tradução de Soledade Santos

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Insanes histoires de la vie

Insanes histoires de la vie,
Toutes voix tues
Reste le bruit éternel du sang.

Debout sur les désastres des guerres
Brillent les vains débris du monde,
Le ciel rempli de fantômes d’aurore.

Cachée dans les brouillards des villes,
La peur fait bouger les engins du rêve.
Un doigt déchiffre la langue morse
Des fièvres profondes,
La litanie des oracles perdus.

Tout va se refaire sous nos pas
Au seul cri du matin
Et les ruines s’illuminer d’aube.

Aube, première aube toujours déchirante,
Qui construit la journée avec le néant.

Albert Ayguesparse, Les armes de la guérison, Bruxelles, 1973

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