Estrelas e jasmim

Cada um deles já foi um deus muitas vezes:
gato, ouriço e – a nossa intrusa de verão – tartaruga.
Um triângulo perfeito, não podem nem comer-se
nem casar uns com os outros.
E esta noite são deuses
sob o jasmim sob as estrelas.

Já o ouriço desdenhara da ceia do gato
e caminhava embaraçado a seu lado,
enfiando a cabeça nos arbustos.
Sabiamente agora fica de olho nele
e na tartaruga
que atravessa ruidosamente o cascalho.

Para o gato, o jasmim é branco,
mas as estrelas têm cores.
Para o ouriço não há estrelas,
só um céu de jasmim,
contra o qual fareja algo escuro,
delineado como uma ave de rapina.

Sabiamente, a tartaruga ignora tanto o jasmim como as estrelas.
Já me basta, diz ela, transportar o céu às costas,
um céu que é sólido, matemática e delicadamente colorido –
e em que alguém, além disso, pintou
o endereço dos nossos vizinhos: nº9, estrada do Surrey.
Chegado Setembro, iremos pô-la na caixa do correio deles.

Maurice Riordan (n. 1953), Irlanda, tradução de Soledade Santos

STARS AND JASMINE

Each of them has been a god many times:
cat, hedgehog and – our summer interloper – the tortoise.
A perfect triangle, they can neither eat
nor marry one another.
And tonight they are gods
under the jasmine under the stars.

Already the hedgehog has scoffed the cat’s supper
and she’s walked nonplussed beside him
escaping headlong into the bushes.
Wisely now, she keeps an eye on him there,
and on the tortoise
noisily criss-crossing the gravel.

For the cat, jasmine is white
but the stars have colours.
For the hedgehog, there are no stars
only a sky of jasmine,
against which he sniffs something dark,
outlined like a bird of prey.

Wisely, the tortoise ignores both jasmine and stars.
Isn’t it enough, she says, to carry the sky on your back,
a sky that is solid, mathematical and delicately coloured –
on which someone, too, has painted
our neighbours’ address: 9a Surrey Rd.
Come September, we will post her through their letterbox.

Maurice Riordan

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