Mistérios, sim

Na verdade, vivemos com mistérios demasiado maravilhosos
para serem entendidos.
Como pode a erva ser nutritiva
na boca dos cordeiros.
Como podem os rios e as pedras estar em permanente
aliança com a gravidade
enquanto nós ansiamos elevar-nos.
Como podem duas mãos ao tocar-se firmar laços
que nunca mais se quebram.
Como é que as pessoas, vindas do prazer ou
das cicatrizes dos golpes,
chegam ao conforto de um poema.

Deixem-me manter sempre a distância
dos que pensam ter todas as respostas.

Deixem-me ficar na companhia dos que dizem
“Olhem!” e riem de assombro
e inclinam reverentes a cabeça.

Mary Oliver (n. 1935), EUA, tradução de Soledade Santos

MYSTERIES, YES

Truly, we live with mysteries too marvelous
to be understood.
How grass can be nourishing in the
mouths of the lambs.
How rivers and stones are forever
in allegiance with gravity
while we ourselves dream of rising.
How two hands touch and the bonds
will never be broken.
How people come, from delight or the
scars of damage,
to the comfort of a poem.

Let me keep my distance, always, from those
who think they have the answers.

Let me keep company always with those who say
“Look!” and laugh in astonishment
and bow their heads.

Mary Oliver, in Evidence

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4 comentários a “Mistérios, sim

  1. Maravilha, Companhia! Hoje, estes mistérios serão, sim, a companhia do meu dia. Bem hajam! Ana

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    • Também achámos muito boa esta companhia, estes mistérios, um olhar disponível para a eterna surpresa do mundo.
      Quando li o poema, pensei, é como tantos de Caeiro e de Whitman, um poema de sarar. Vamos lá partilhá-lo 🙂
      Obrigada, Ana, um dia bom aí
      Soledade

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    • Graça, fico contente por ter gostado e por ter deixado um olá – é bom irmos sabendo uns dos outros 🙂
      Um beijo grande
      Soledade

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