Tributo ao kitsch

Amiga que partes:
talvez não torne a ver-te.
Ramón López Velarde

Doces formas de te alimentar, esquecimento:
recolher pedrinhas de um rio sagrado
e guardar violetas nos livros
para que esmaeçam ilegíveis.

Beijá-la muitas vezes e em segredo,
no último dia,
antes da terrível separação,
no limiar
do adeus tão romântico
e sabendo
(embora ninguém se atreva a confessá-lo)
que as andorinhas não regressarão.

(Não me perguntes como passa o tempo)

José Emilio Pacheco (México, 1939-2014), tradução de Soledade Santos

 

Homenaje a la cursilería

“Amiga que te vas:
quizá no te vea más.”
Ramón López Velarde

Dóciles formas de entretenerte, olvido:
recoger piedrecillas de un río sagrado
y guardar las violetas en los libros
para que amarilleen ilegibles.

Besarla muchas veces y en secreto
en el último día,
antes de la terrible separación;
a la orilla
del adiós tan romántico
y sabiendo
(aunque nadie se atreva a confesarlo)
que nunca volverán las golondrinas.

(No me preguntes cómo pasa el tiempo)

José Emilio Pacheco

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3 comentários a “Tributo ao kitsch

  1. É um tema querido e secreto este, terrível também. E o kitsch vale-nos! É um poema daqueles que gosto: um poema sépia, clarinho.
    Bom fim de semana aos dois: Soledade e Nuno

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  2. É um poema em tom menor, dos que eu gosto, sem trombetas tremebundas – a vida no seu “tom sépia”, como diz a Ana, na aceitação do possível, enfeitado com uns rituais da saudade, umas floritas kitsch – que confortam um pouco e trazem uma ironia macia, ela própria confortante.
    Obrigada, Ana e Poesia.
    Soledade

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