NA BIBLIOTECA

Para Octávio

Há um livro chamado
Dicionário dos anjos.
Ninguém o folheou nestes cinquenta anos.
Eu sei, porque ao fazê-lo,
A capa rangeu e as páginas
Fragmentaram-se. Ali descobri
Que em tempos foram os anjos
Tão numerosos como as moscas.
O céu do crepúsculo ficava cheio deles.
Tínhamos de acenar com as duas mãos
Para os espantar.

Agora o sol brilha
Através das janelas altas.
A biblioteca é um local tranquilo.
Anjos e deuses amontoam-se
Em livros escuros que ninguém abre.
O grande segredo repousa
Nalguma prateleira por onde Miss Jones
Passa diariamente na sua ronda.
Ela é muito alta, por isso
Põe a cabeça de lado como se escutasse.
Os livros sussurram.
Eu não oiço nada, mas ela sim.

Charles Simic (Jugoslávia, n. 1938), tradução de Soledade Santos

In the library

for Octavio

There’s a book called
A Dictionary of Angels.
No one had opened it in fifty years,
I know, because when I did,
The covers creaked, the pages
Crumbled. There I discovered
The angels were once as plentiful
As species of flies.
The sky at dusk
Used to be thick with them.
You had to wave both arms
Just to keep them away.

Now the sun is shining
Through the tall windows.
The library is a quiet place.
Angels and gods huddled
In dark unopened books.
The great secret lies
On some shelf Miss Jones
Passes every day on her rounds.
She’s very tall, so she keeps
Her head tipped as if listening.
The books are whispering.
I hear nothing, but she does.

Charles Simic

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2 comentários a “NA BIBLIOTECA

    • Obrigada, Adair. Simic instiga-me, esta poesia despojada, tantas vezes insólita, mas tão próxima do que nos inquieta.

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