Sou criança e livre

amina-said

sou criança e livre
de morar nos domingos eternos
sol pousado no horizonte
na claridade de todas as coisas
a terra contempla as estações
não tenho lugar nem morada
a vida está em toda parte e em lugar nenhum

na cisterna do pátio a avó tira
água para o manjericão e a hortelã
esmaga o sal e as especiarias
trava o seu combate diário com a realidade
a brisa enfuna as riscas da cortina
o candeeiro ainda está aceso
do outro lado brinco com as sombras

nos jardins do meu pai
as árvores dão frutos antigos
sussurram na linguagem dos pássaros
a água do poço canta nos sulcos
sob os meus passos nascem caminhos de areia
vivo na inocência do dia
puro começo sem antes nem depois

saio de uma casinha construída como um barco
e deixo-me levar pela emoção azul
um bailado de cavalos marinhos aflora
as estrelas caídas dos céus
nos rochedos florescem ouriços
algas cintilam nos meus pulsos
só o instante vive naquilo que contemplo

sou criança e livre
não tenho lugar nem morada
vasto é o horizonte quando o mundo
inteiro é um poema
dia pleno na terra
a noite ainda não tinha sido criada
e eu ergo-me sobre todos os tempos

Amina Saïd, Tunísia (n. 1953), tradução de Soledade Santos

je suis enfant et libre
d’habiter d’éternels dimanches
soleil posé sur l’horizon
dans la clarté de toute chose
la terre contemple ses saisons
je n’ai lieu ni demeure
la vie est partout et nulle part

dans la citerne du patio l’aïeule puise
l’eau pour le basilic et la menthe
pile le sel et les épices
livre son combat quotidien au réel
la brise gonfle les rayures du rideau
la lampe brille encore
je joue de l’autre côté des images

dans les jardins de mon père
les arbres portent des fruits anciens
chuchotent dans la langue des oiseaux
l’eau du puits chante dans les sillons
sous mon pas naissent des chemins de sable
je suis dans l’innocence du jour
pur commencement sans avant ni après

Amina Saïd, Tunísia, 1953

 

 

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