O velho Marx

Tento imaginar o seu último inverno,
Londres húmida e fria, o beijo impossível da neve
nas ruas vazias, a água negra do Tamisa,
as prostitutas enregeladas junto às fogueiras no parque.
À noite, enormes locomotivas choravam algures.
Os trabalhadores no pub falavam tão depressa
que não conseguia entendê-los de maneira nenhuma.
De início, a Europa era mais rica, mais tranquila,
embora os belgas continuassem a martirizar o Congo.
Mas e a Rússia? O seu despotismo? A Sibéria?
À tarde olhava longamente para as portadas.
Não conseguia concentrar-se, copiava antigos trabalhos:
passava o dia a ler o jovem Marx
e em segredo admirava esse autor ambicioso.
Continuava a acreditar na sua fantástica visão,
mas durante breves instantes
receava ter apresentado ao mundo
apenas uma nova forma de desesperança;
então fechava os olhos e só via
a escuridão escarlate das próprias pálpebras.

Adam Zagajewski, Polónia (n. 1945), tradução de Soledade Santos, publicada primeiro na revista Agio.

Continuar a ler

Anúncios