A mulher do fazendeiro

Das papas caseiras
para o seu apetite rústico,
à vida confinada de ambos no Ilinóis,
onde todos os acres semelham
fábricas de vassouras floridas,
há dez anos que ela se tornou o hábito dele
que assim esta noite de novo dirá
vamos, coisinha doce,
e ela não lhe pode explicar
como é preciso mais para a vida
do que a breve ponte luminosa
da cama rangente, mais até
que o braile lento dele,
como um deus opressivo tornado suave,
essa velha pantomima de amor
que ela deseja, embora
a deixe ainda mais só,
de regresso a si outra vez,
a mente separada da dele, vivendo-se
a si mesma nas suas próprias palavras
e detestando a humidade da casa
que persiste neles quando
enfim repousam em sonhos separados
e então ela observa-o,
robusto ainda no invólucro desalinhado
do sono habitual enquanto
a juventude dela definhara
nesta cama de casal partilhada,
e então ela deseja-o aleijado, poeta,
desamparado, ou melhor ainda, às vezes
morto, meu amor.

Anne Sexton (1928-1974), EUA, tradução de Soledade Santos

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