Da Costa

Uma solitária ave cinzenta
que mergulha a pique, voando ao longe,
Sozinha nas sombras e grandezas e tumultos
Da noite e o mar
E o astros e tempestades.

Além cintila e paira sobre as trevas,
Além oscila e esvoaça na penumbra,
Além no vento e na chuva e no imenso,
Além no buraco de um grande mundo negro,
Onde névoas batalham, conduzidas no céu, tocadas do mar,
Amor de bruma e encanto de voo,
Glórias de acaso e perigos de morte
Nas asas incansáveis e latejantes.

Além nas profundezas do grande mundo escuro,
Para lá da extensa orla onde a espuma e a força
Das vagas a quebrarem-se se perderam e foram
Nas marés que se abismam e se erguem e desfazem.

Carl Sandburg, EUA (1878-1967), traduzido por Nuno Dempster.

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Dunas

QUE vemos aqui nas dunas de areia ao luar,
      sozinhos com os nossos pensamentos, Bill,
Sozinhos com os nossos sonhos, Bill, suaves como as mulheres
      que põem um lenço à volta da cabeça e dançam,
Sozinhos com uma imagem e uma imagem após outra de
      todos os mortos,
Mortos mais numerosos do que todos estes grãos de areia, um
      a um amontoados ao luar,
Amontoados contra a linha do horizonte, com as formas que a
      mão do vento quis ,
O que vês aqui, Bill, além do que faz cair em desespero
      os homens sábios,
além do que os poetas choram e os soldados enfrentam
      com coragem até deixarem o crânio ao sol ―
      que será, Bill?

Carl Sandburg, EUA (1878-1967), tradução de Nuno Dempster

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A erva

Amontoem os corpos em Austerlitz e Waterloo,
Atirem-nos para a vala e deixem-me trabalhar ―
Eu sou a erva; alcatifo tudo.

Amontoem-nos em Gettysburg,
Amontoem-nos em Ypres e Verdun.
Atirem-nos para a vala e deixem-me trabalhar.
Dois anos, dez, e os passageiros dirão ao condutor:
Que lugar é este?
Onde estamos agora?

Eu sou a erva.
Deixem-me trabalhar.

Carl Sandburg, EUA (1878-1967), tradução de Nuno Dempster

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