Regresso a um lugar iluminado por um copo de leite

02-traducir

Noite dentro as nossas mãos deixam o trabalho.
Repousam abertas com rastos de animais
Que atravessam a neve fresca.
Não precisam de ninguém. Rodeia-as a solidão.

À medida que se aproximam, e palpam,
São como dois pequenos regatos
Que ao entrarem num rio largo
Sentem a atração do mar distante.

O mar é um aposento remoto no tempo
Iluminado pelos faróis de um carro que passa.
Um copo de leite cintila sobre a mesa.
Só tu podes trazê-lo até mim.

Charles Simic (Jugoslávia, n. 1938), tradução de Soledade Santos

Continuar a ler

NA BIBLIOTECA

Para Octávio

Há um livro chamado
Dicionário dos anjos.
Ninguém o folheou nestes cinquenta anos.
Eu sei, porque ao fazê-lo,
A capa rangeu e as páginas
Fragmentaram-se. Ali descobri
Que em tempos foram os anjos
Tão numerosos como as moscas.
O céu do crepúsculo ficava cheio deles.
Tínhamos de acenar com as duas mãos
Para os espantar.

Agora o sol brilha
Através das janelas altas.
A biblioteca é um local tranquilo.
Anjos e deuses amontoam-se
Em livros escuros que ninguém abre.
O grande segredo repousa
Nalguma prateleira por onde Miss Jones
Passa diariamente na sua ronda.
Ela é muito alta, por isso
Põe a cabeça de lado como se escutasse.
Os livros sussurram.
Eu não oiço nada, mas ela sim.

Charles Simic (Jugoslávia, n. 1938), tradução de Soledade Santos

Continuar a ler

Solidão

Ali, onde a primeira migalha
Cai da mesa
Pensas que ninguém a ouve
Tocar no chão.
Mas algures já
As formigas estão a pôr
Os seus chapéus de Quacker
E se preparam para te visitar.

Charles Simic, Sérvia-EUA, n. 1938, tradução de Soledade Santos
——————————————————————————–

Continuar a ler