Aux arbres penchés

Não, mas eu falo também com as pedras. Há já muito tempo. É mais fácil. Basta esperar que se decidam: e ouvir.

Uma pedra exige mais tempo do que uma árvore, para se lançar… mas fala sempre das mesmas coisas: fala da força da gravidade. E pesa o que diz. Provavelmente ainda precisa de imaginar raízes, um antepassado, um ponto de partida. Tem graça dizer-se isto, mas a pedra é livre – sem laços que a prendam a coisa alguma. Porém, uma vez de pé, erguida, só vemos os séculos que a impulsionam. Mas que a fixam ao horizonte, apetece-me acrescentar. A pedra clama. Clama.

Uma árvore, pelo contrário, fala dos ventos, das vidas em seu redor. Conhece as florações, a duração dos ciclos e do medrar, as singularidades das paradas nupciais que incita e protege. Aliás, às vezes diz “os meus pássaros”, falando com a estrela que à noite a procura para se orientar. Mas a árvore não laça coisa nenhuma. Chega até a esquecer-se de que tem raízes. Acontece-lhe. E da sua vida – quando dela fala – só menciona a expectativa. Do solo até ao cume, a árvore projecta-se num único impulso. Um caminho que sobe. Sem cessar. E que reclama a árvore. Reclama-a.

Uma árvore que cai é sempre um drama para nós, os “sem-raiz”. Já um seixo que rola, que se despenha, é apenas uma circunstância, a ocasião de um gracejo. Um relâmpago, o tempo de um ricochete.

Mas o seixo aspira a chegar ao fundo. Para se estear e poder, finalmente, defrontar o tempo com armas iguais. É pelo menos o que dizem as árvores.

Emeric de Monteynard, França (1956)
tradução de Soledade Santos

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