Fim de 68

Contemplei da lua, ou quase,
o modesto planeta que contém
filosofia, teologia, política,
pornografia, literatura, ciências
evidentes ou ocultas. Nele há também o homem,
e eu no meio destes. E é tudo muito estranho.
Em poucas horas será noite e o ano
vai acabar entre explosões de espumante
e de fogo de artifício. Talvez de bombas ou pior,
mas não aqui onde estou. Se um tipo morre
ninguém se importa, desde que seja
desconhecido e de longe.

Eugenio Montale, Itália (1896 – 1981), tradução de Nuno Dempster.

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NÃO CORTES

Não cortes, tesoura, aquela figura,
sozinha na memória que se esvazia,
não faças do seu grande rosto à escuta
a minha névoa de sempre.

Um frio cala… Duro o golpe mutila.
E a acácia ferida sacode
a casca de cigarra
na primeira lama de Novembro.

Eugenio Montale, Itália (1896-1981), tradução de Nuno Dempster

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