O género humano

Nem juntos os nossos corações soam mais,
na inquietude total do universo,
do que esse frigorífico que ouvimos latir à noite
numa solidão cordial e insone.

Nem sequer a união
de todos os trabalhos que suportamos
conseguia mudar a forma de uma nuvem.

A soma do amor de todos juntos
não podia salvar
a vida de um insecto agonizante
nem conter a soberba de um tirano.

A nossa história é um cofre
de sangue e cinza.
O mar apaga a esteira dos navios.

O tempo varrerá as nossas pegadas.

Felipe Benítez Reyes, Espanha (n.1960), tradução de Nuno Dempster.

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A idade de ouro

Aquilo que o tempo leve
que seja tanto
quanto o tempo nos deu,
prenda não merecida,
abandonando a memória na inocência
da vida já cumprida, porque nada
fere mais e mais fundo que a lembrança:
enquanto subsista uma noite na memória,
essa noite é a Noite
e essa intensa memória a Memória.

O tempo leve tudo
o que queira levar,
porque tudo foi seu desde sempre.

Que o tempo desvaneça
o ouro delinquente do amor
e a imagem hermética daquilo
que chamavas passado
                             ― e era apenas
ontem: a fugitiva
idade de não ter
idade para o passado.

Idade de Baudelaire e de miúdas
que adquiriam noções da vida
nas últimas filas dos cinemas
e nesses velhos cinemas do pós-guerra
convertidos
em lugares de dança que fechavam
quando o céu queria amanhecer.
Amanheceres de domingo,
voltando a casa com
um copo ainda na mão
e tabaco esquisito no bolso,
a essa hora em que abriam os cafés
e as damas de caridade montavam mesas
com cartazes de meninos moribundos.

E era a morta luz que amanhecia
a metáfora gelada e a ilusão exacta de estar queimando
os templos da eterna juventude.

Mas no seu carro fúnebre
o tempo ia admitindo passageiros.

E as naves queimadas são cinza
e muito pouco de eterno
teve a juventude.

Assim que arraste tudo, o tempo
que leve no seu vórtice a memória,
                                                       deixando
um vazio perfeito no passado.

Porque toda a recordação
acaba corrompendo-se no presente
e este presente já
de pouco vai servir-nos.

De pouco vai servir-nos
o saber que houve um tempo em que a vida
valia o peso em ouro.

Porque a vida coloca
a casa no passado.

E esta casa sombria não parece a nossa.

Felipe Benítez Reyes, Espanha (n.1960), tradução de Nuno Dempster.

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O Mar

O facto de arrojar ao mesmo tempo
as cinzas ao mar de todos os cadáveres
que vagam pelas brumas da História;
mesmo toda essa cinza
unânime, afirmo eu, em nada alteraria
o contínuo fluir:

lentas marés,
a alada ondulação agreste
ou as lendas graves da sua ira.

Errabundo e cativo, porém sempre
com uma disciplina
perfeita: enigmática e calculada,

ouve como ele ruge:

o mar narcotizado pelas luas,
homérico, mutável e mecânico,
com mesnadas de peixes
de olhos aterrados que o exploram
como os meditativos peixes coloridos
exploram uma vez e outra vez e uma vez mais
o aquário cheio de palmeiras
e baús de pirata em miniatura.

Flutuante do mesmo modo
que o nosso pensamento,
olha-o,
angustiado de azul indefinível,
asmático, grandioso e teatral,
ele,
que foge e invade
segundo um estranho método que tem
algo a ver quiçá com os nossos ciclos
de razão e loucura, as duas faces
de uma mesma moeda que cai sempre de esquina.

Refúgio de seres silenciosos,
inesgotável mar de vaivém branco,
tão dado a todo o tipo de metáforas
que costumam lembrar-nos certas vezes
o muito que nós somos como o mar.

Felipe Benítez Reyes, Espanha (n.1960), tradução de Nuno Dempster.

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A Desconhecida

Naquele comboio, a caminho de Lisboa,
no assento contíguo, sem te falar
— logo me arrependi.
Em Málaga, num antro com luzes
da cor do crepúsculo, os dois muito fumados,
e tu não me olhaste.
De novo naquele bar de Malasaña,
vestida de branco, deusa de não sei
que vício ou virtude.
Em Sevilha, fascinado com os teus olhos celestes
e a tua franja negra, apoiada no balcão
daquele lugar sinistro,
olhando fixamente — estarias bem bebida — o fundo do teu copo.
Em Granada os teus olhos eram cinzentos
e pediste-me lume, e já te não vi mais,
e andei a procurar-te.
Ou à entrada do cinema, não sei onde,
rodeada de gente que ria.
E outra vez em Madrid, alta noite,
cada qual esperando que passasse algum táxi
sem te dizer sequer
uma frase cortês, um inocente comentário…
Em Córdova, a caminho do hotel, quando me perguntaste
por não sei que lugar em não sei que idioma,
e vi que te afastavas, e maldisse a vida.
Inumeráveis vezes, também,
na imaginação onde caminhas
às vezes junto a mim, sem sabermos que dizer.
E sim, de repente nalgum bar
ou tocando à minha porta, confundida no piso,
apareces fugaz e de cada vez distinta,
a caminho dos teus mundos, de que não poderei
guardar memória.

Felipe Benítez Reyes, tradução de Nuno Dempster para aqui.

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Miséria da Poesia

A lenta gestação de uma metáfora
ou mesmo esse tremor que às vezes resta
depois de ter escrito uns quantos versos
abonam uma vida? Sei que não.
Tão-pouco ignoro, embora não me sendo
chave de uma existência, que as palavras
dirão que quem dispôs sua harmonia
soube ordenar um mundo. E isso basta?
Os anos vão passando e sei que não.
Há qualquer coisa grande nesta luta
e de algum modo tenho
a difusa certeza de que existe
un verso que contenha esse segredo
vulgar e abominável numa rosa:
é o rosto da morte a formosura.
Se encontrasse esse verso, bastaria?
Talvez não. A verdade era tanta
quanta para criar um mundo e dar-lhe
uma cor nova à noite, e à lua
um círculo de fogo, e umas pupilas
e uma alma a Galateia, e mais um mar
de neve nos desertos? Sei que não.

Felipe Benítez Reyes, Espanha (n. 1960), traduzido por Nuno Dempster.

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A Incoerência do Quotidiano

Relógios digitais como luas geladas,
câmaras fotográficas e de vídeo
com o aspecto impecável de amuletos,
televisores que reflectem
imagens de doentes, de atletas, de assassinos
― e esse charco de sangue em grande plano ―;

ante ofertas de pilhas de longa duração,
ante montões
de rolos de película que irão eternizar
a viagem às ilhas, o olhar de algum menino
ou o furtivo nu de uma mulher que dorme;

ante o escaparate dos distantes prodígios,
súbito, pelo acaso de analogias,
há um homem que vê
no fluxo da memória, episódios
de névoa confundidos
em corpos e em objectos que recobrem
um passeio sem fim,
ao fundo da vidraça que o reflecte.

E vê nessa vidraça imagens imprecisas
de automóveis que passam, de uma jovem que passa,
a intermitência de um néon e os diligentes
transeuntes que fogem sob a chuva:
sombra na própria sombra repetida;
e olha para os relógios,
o altivo mecanismo com desconto
de vinte e tal por cento, e prossegue o seu rumo,
já outro curioso se detém a fitar
relógios digitais, e câmaras de vídeo, e o reflexo
do seu próprio mirar-se na vidraça,
e acerta no relógio a hora exacta,
para seguir depois
o seu caminho, quando a chuva cessa,
com sapatos molhados e chapéu-de-chuva,
por uma rua comercial cada vez mais deserta.

Felipe Benítez Reyes, Espanha (n. 1960), traduzido por Nuno Dempster.

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