A promessa

Ficai, pedi
às flores cortadas.
Elas curvaram
ainda mais as cabeças.

Fica, disse à aranha,
que fugiu.

Fica, folha.
Ela enrubesceu
de vergonha por mim e por si.

Fica, disse ao meu corpo.
Ele sentou-se como se fosse um cão,
obediente por instantes,
depois começou a tremer.

Fica, disse à terra de vales e prados ribeirinhos,
de escarpas fossilizadas,
de calcário e arenito.
Ela olhou para trás,
a expressão insegura, em silêncio.

Ficai, disse aos meus amores.
Cada um deles respondeu:
Sempre.

Jane Hirshfield, EUA (n. 1953), tradução de Soledade Santos

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Três raposas na extremidade do campo ao crepúsculo

Uma delas correu,
de nariz no chão,
sombra cor de ferrugem,
não estava a caçar nem a brincar.

Aquela deteve-se; sentou-se; deitou-se; voltou a levantar-se.

A outra nunca se mexeu,
excepto para virar ligeiramente a cabeça, enquanto caminhávamos.

Até que nos aproximámos de mais
e elas sumiram-se.
Os bosques recolheram-nas como se nunca tivessem existido.

Gostaria de me ter lembrado de encostar o rosto à erva.

Continuámos a caminhar,
conversando como fazem os estranhos ao tornar-se amigos.

Há cada vez mais coisas que não digo a ninguém,
seja a estranhos ou amantes.
Isto desliza para o coração
sem pressa, como se nunca tivesse existido.

E no entanto, entre as árvores, algo mudou.

Algo olha para trás do meio das árvores
e conhece-me pelo que sou.

Jane Hirshfield, EUA, n. 1953
tradução de Soledade Santos

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