Carne imortal

Eu tenho horror da morte.
Mas às vezes, quando penso
que sob a terra hei-de tornar-me
alimento de raízes,
seiva que subirá por caules frescos,
grande árvore que centuplique talvez
a minha pequena estatura,
digo: – Meu corpo:
és imortal.
E toco com prazer
coxas e seios,
o cabelo e as costas,
pensando: Acaso apalpo
os ramos de um cedro,
as palhas de um ninho,
a terra de um sulco
tépido como carne feminina?
E extasiada murmuro:
– Corpo meu: és feito
de substância imortal!

Juana de Ibarbourou, Uruguay, (1892 – 1979), tradução de Soledade Santos

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