Joana d’Arc

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Agora as chamas seguem Joana d’Arc
que vem cavalgando pela noite escura
sem lua que lhe acenda a armadura,
sem homens que a guiem na névoa sombria.
Disse “Estou cansada da guerra,
queria o tipo de trabalho que tinha antes,
um vestido de casamento ou algo branco
para cobrir a minha ânsia exasperada.”

“Que bom ouvir-te falar assim.
Tenho-te visto cavalgar dia após dia
e algo em mim anseia por conquistar
uma heroína tão fria e solitária.
“E quem és tu?”perguntou ríspida
a quem lhe falava sob o fumo.
“Sou o fogo”, respondeu ele,
“E amo a tua solidão, o teu orgulho.”

“Então, ó fogo, arrefece o teu corpo,
vou dar-te o meu para abraçares.”
E dizendo isto, mergulhou nele
para ser sua, a sua única noiva.
E no mais fundo do seu coração ardente,
ele tomou as cinzas de Joana d’Arc,
e bem alto, acima dos convidados da boda,
pendurou os restos do vestido de noiva.

Foi no mais fundo do seu coração ardente
que ele tomou as cinzas de Joana d’Arc,
e então ela compreendeu que se ele era fogo,
oh, então ela tinha de ser lenha.
Vi-a estremecer, vi-a chorar,
vi a glória no seu olhar.
Eu próprio anseio pelo amor e pela luz,
mas tem de vir tão cruel, e oh tão fulgurante?

Leonard Cohen (n. 1934), Canada, tradução de Soledade Santos

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GOSTARIA DE LER

Gostaria de ler
um dos poemas
que me trouxeram à poesia
mas não consigo lembrar-me
de um único verso
nem de onde procurar

O mesmo sucedeu
com o dinheiro
as miúdas e as conversas pela noite dentro

Que é feito dos poemas
que me afastaram
de tudo quanto amei
para me deixarem aqui
desamparado
com o único pensamento de te encontrar.

Leonard Cohen, 1934, Canadá
tradução de Soledade Santos
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Por causa

Por causa de algumas canções
em que falei do seu mistério,
as mulheres têm sido
excepcionalmente amáveis
para com a minha velhice.
Arranjaram um lugar secreto
nas suas vidas ocupadas
e levam-me para lá.
Desnudam-se,
cada uma à sua maneira,
e dizem,
“Olha para mim, Leonard,
olha para mim uma última vez.”
Então inclinam-se sobre a cama
e tapam-me
como a um bebé trémulo de frio.

Leonard Cohen, Canadá (n. 1934), tradução de Soledade Santos

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