Vou escrever um livro

Vou escrever um livro que fale das (pouquíssimas)
mulheres da minha vida. Da minha primeira namorada,
que me ensinou o amor e as portas secretas
do céu e do inferno; de Isabel que se foi
para o país dos sonhos com o pequeno Nemo,
porque passava muito mal aqui; de Margarita,
recordando uns “jeans” brancos e umas nódoas
estrategicamente distribuídas; de Ginebra
que deixou Lanzarote teso por culpa minha
e fundou uma família respeitável à minha custa;
de Susana que continua tão bonita como então;
de Macarena, um doce que me amargou a vida
dois verões inteiros; de Carmen que era bruxa
e via o futuro com olhos de rapaz;
da rede que segurava os cabelos de Paula
quando me apaixonei pela sua melancolia;
de Arancha, de Paloma, de Marta e de Teresa;
dos seus beijos que içaram a bandeira do triunfo
sobre a negra morte, e também do seu gelado
desdém, que encarcerou tantas vezes o meu espírito
na triste masmorra da desesperança.
Vou escrever um livro que fale das mulheres
que escreveram a minha vida.

Luis Alberto de Cuenca, Espanha (n. 1950), tradução para aqui de Nuno Dempster.

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Hamurabi

As miúdas como tu riem-se nas barbas
do próprio Hamurabi.

«Olho por olho
e dente por dente»
(mandou escrever na Babilónia
há quatro mil anos).

As miúdas como tu respondem
ao amor com desdém
e ao desdém com amor.
Só para chatear Hamurabi.

Luis Alberto de Cuenca, Espanha (n. 1950), tradução de Nuno Dempster.

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A Tua Musa

Convence-te primeiro de que te acha simpático,
de que se sente bem quando sair contigo.
Condu-la logo a casa, serve-lhe um par de copos
e, num dado momento, mordisca-lhe o pescoço.
Algumas vezes há-de querer ir para o quarto,
outras alegará uma indisposição
e outras há-de contar-te a vida por fascículos.
Mostra-lhe em cada caso a dose de carinho
que peçam os seus olhos. Sê generoso sempre.
Conserva-a junto de ti custe quanto custar.
Sem ela, a tua musa, não és ninguém, poeta.

Luis Alberto de Cuenca, Espanha (n. 1950), tradução de Nuno Dempster.

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A Malcasada

Dizes-me que Juan Luis não te compreende,
que só pensa nos seus computadores
e que de noite não te liga.
Dizes-me que os teus filhos não te servem,
que só dão problemas, que se aborrecem
de tudo e que estás farta de aturá-los.
Dizes-me que os teus pais estão velhos,
que se tornaram tacanhos e egoístas
e já não és a sua rainha como antes.
Dizes-me que chegaste aos quarenta
e que não é fácil começar de novo,
que os únicos homens com quem lidas
são colegas de Juan na IBM
e não gostas de executivos.
E eu, que papel tenho eu nessa história?
Que queres que faça? Que mate alguém?
Que dê um golpe de estado libertário?
Quis-te como um louco. Não o nego.
Mas isso foi há muito, quando o mundo
era uma cintilante madrugada
que não quiseste compartilhar comigo.
A saudade é um passatempo vulgar.
Volta a ser a que foste. Procura um ginásio,
pinta-te mais, alisa as rugas
e veste roupa sexy, não sejas tola:
no mínimo Juan Luís volta a mimar-te,
e os teus filhos vão a um acampamento,
e os teus pais hão-de morrer.

Luis Alberto de Cuenca, Espanha (n. 1950), tradução de Nuno Dempster
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