Menino atrás da vidraça

Ao entardecer, absorto
Atrás da vidraça, o menino vê
Chover. A luz que se acendeu
Num candeeiro de rua revela
A chuva branca contra o ar escuro.

Sozinho no quarto,
Envolve-o a atmosfera morna,
E a cortina, tapando
O vidro como uma nuvem,
Segreda-lhe feitiços lunares.

Esquece a escola. É tempo
De trégua, com o livro
De histórias e de imagens
Sob a lâmpada, a noite,
O sonho, as horas sem medida.

Vive no coração da sua força terna,
Sem desejo ainda, sem memória,
O menino, sem suspeitar
Que lá fora o tempo aguarda
Com a vida, à espreita.

Na sua sombra a pérola já se forma.

Luis Cernuda (1902-1963), Espanha, tradução de Soledade Santos

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Não dizia palavras

Não dizia palavras,
aproximava tão-só um corpo interrogante,
porque ignorava que o desejo é uma pergunta
cuja resposta não existe,
uma folha cujo ramo não existe,
um mundo cujo céu não existe.

A angústia abre caminho entre os ossos,
sobe as veias
até se abrir na pele,
provedores de sonho
feitos carne em interrogação voltada às nuvens.

Um roço de passagem,
um olhar fugidio entre as sombras,
chegam para que o corpo se abra em dois,
ávido de receber em si
outro corpo que sonhe;
metade e metade, sonho e sonho, carne e carne,
iguais em forma, iguais em amor, iguais em desejo.
Ainda que seja só uma esperança
porque o desejo é pergunta cuja resposta ninguém sabe.

Luis Cernuda, Espanha (1902-1963), tradução de Nuno Dempster para aqui.

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