Aldeia

Este ofício artesanal de cultivar palavras
herdei-o de mestres que partiam
a navegar pela linguagem.
Vi como acenderam o forno e o destino.
Amassaram os verbos,
sonhavam a madeira.
Vi também como o velho falava entre os jovens.

Por isso entendo agora
o que me diz o pescador,
o modo de pensar do camponês,
a voz azul das carpintarias,
os olhos de quem vela uma criança ou um doente.

É a cumplicidade dos ofícios
que trabalham o mundo
e obedecem às leis do dia e da noite,
à luz do sol e da lua.

Do outro lado da aldeia,
estende-se hoje o inferno
de uma língua bárbara:
prémio de risco, bónus, resgates, interesses,
banqueiros, fundos de investimento.
A linguagem tóxica soa
como as trombetas de um exército ignóbil,
como as armas dos assassinos.

Luis García Montero (Espanha, 1958), tradução de Soledade Santos

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IMPERTINÊNCIAS

Na mesa ao lado,
um jardim de senhoras ao domingo,
associadas na ordem da má-língua
e do chá com limão,
num café de inverno, pela tarde.

Queixam-se deste tempo, bebem, fumam,
discutem seus segredos, concordam com sorrisos…

e de súbito param a olhar-te.

Despreocupada contas
― e no local a tua voz é como um sabre
que fere o inimigo ―
uma história de cama com detalhes hábeis,
uma maneira de sentir a vida
que penetra e dissolve
a luz de igreja,
a humilhação do frio nos joelhos,
os caixões fechados e as fotos do casamento.

Certo tipo de gente
sofre de invernia nos olhos,
conhece as geadas
que passam por baixo da porta,
uma porta de quarto,
ali onde a noite tem sempre
um cheiro a espera inútil,
e depois da espera aceitam-se as mentiras,
e a seguir o silêncio.

Nada deixam os anos na mesa do lado,
senão um murmúrio que envelhece e uma sombra
que cruza os lábios como uma cicatriz,
um rancor na epiderme da consciência.

A tua voz é alta e jovem
e vestida de festa, e quando se desnuda
faz com que o sol de inverno, comovido,
se detenha um instante para apoiar a fronte
nas vidraças do café.

Luis García Montero, Espanha (n. 1958), traduzido por Nuno Dempster.

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A Cidade

Fazem-se de betão e vidro,
de lugares estranhos e gentes ocupadas.
Em todas cresce uma árvore
diante da casa de um suicida
e há meninos que se habituam a adormecer
sonhando com um cão.
Não falta o pequeno-almoço em hotéis luxuosos,
nem tão-pouco famílias com jardim,
mas são mais frequentes
as entradas escuras com pares de namorados,
o beijo frio,
a rosa de cimento na janela.

As ruas desembocam em praças descompostas,
as tardes de domingo nos cafés
e o fumo dos automóveis nos olhos do louco
que murmura os seus anos
e enumera-os sem fim
de metro em metro.
Ao sair dos túneis sentimos
que os céus de água
são iguais a um mapa do passado
e costuma entender-se
que a vida é uma arma lenta e de dois gumes
nos passos sem ninguém,
nas noites vazias
ou na fraqueza que as cidades têm
por cinemas de bairro
e por bilheteiras garridas.

Apesar dos plátanos, olmos e tílias,
apesar da erva, se é do Norte que falamos,
a gente que nos olha,
a gente que brota dos semáforos,
a que flui diante das lojas,
necessita do amparo
de outra vegetação,
um sigílio de números e cartões de crédito
que estende as suas raízes pelas caves
à procura da solidão nos sótãos
como os móveis e as ratazanas velhas.

Não é inútil viajar,
pois se é certo que todas as cidades
amanhecem de forma parecida,
a noite chega a cada uma
de maneira diversa.
De dia podem ver-se
secretárias, porteiros e polícias,
músicos de rua e soldados,
caixeiras que escutam e sorriem,
escriturários que cheiram a repartição,
condutores, estranhos sacerdotes,
executivos humilhados.
Igual em todo o lado,
porque só há quilómetros.
Mas existe a noite,
a solidão que anula as profissões
num mundo habitado somente
por homens e mulheres,
confidências de amarga valentia.

Nas cidades podem encontrar-se
relógios que param no último copo,
a lua sobre um táxi
e todos os poemas que te escrevo.

Luis García Montero, Espanha (n. 1958), traduzido por Nuno Dempster.

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Sonata Triste para a Lua de Granada

A Marga

Le ciel est par-dessus le toit.”
Paul Verlaine

Esta cidade fita-me com os teus olhos,
pestaneja,
porque agora depois de tanto tempo
vejo outra vez o piano que sai de casa
e me chega de forma diferente,
abordando as ruas
desta cidade antiga e tão formosa,
que permanece solitária como a desejaste,
carregando com as suas praças
entre as margens perdidas do anseio
e ao abrigo do mar.

Se estivesses aqui
nada teria mudado senão o tempo,
o cadáver estranho dos seus rios
que continuam submersos
como os deixaste.

Agora
sinto outra vez o corpo encher-se de cata-ventos
e vejo-o estendido
sobre gerações de janelas antigas
enquanto a noite avança solitária e perfeita.

Somos de uma cidade
carregada de paciência,
que não conhece o sono das estufas,
nem viveu a estranha presença do amor.
Como pequenas veias
as lojas esperam para abrir amanhã
e o desejo não existe
para lá dos vidros nas montras.

Já sonhámos todos os sonhos,
vivemos aqui
onde a história esquece os seus carris vazios,
onde a paz é negra e se recolhe
no meio de praças fechadas,
próximo de tabernas velhas,
na orla violácea do mistério.

Uma vez ou outra sonhamos
com um mundo diferente:
era na altura o império perdido do açúcar
e chegavam viajantes
atraídos pelo cheiro da indústria.
As ruas encherem-se de motores ruidosos
e a frivolidade
como uma trepadeira brilhante pelo olhos
ofereceu-nos de súbito
carne tépida, candelabros.

Parece que os lembro
abraçados ao mundo entre fatos de linho,
entre a pele formosa de uma época
que nos deixou as suas árvores,
o coração gravado
nas cigarreiras, e a sua dedicatória
nas fotografias.

Agora
quando o destino já não é uma desculpa
a não ser a solidão,
e os céus estão sob o telhado
como os deixaste,
tudo recorda um sonho sujo
de madrugada.

Aqui não tivemos batalhas senão a espera.
A guerra foi um camião que nos buscava,
parado à porta,
partindo com os olhos acesos
de espião
e ao abrigo do mar.
Mais tarde
entre canções tristes de marinheiros louros
tudo ficou adormecido.
De varanda a varanda
ouvimos o pós-guerra pela rádio,
e longe,
sob as cruzes frias das praças,
antigas sombras negras passeavam,
segurando nas mãos
a nossa sobrevivência.

Esta cidade é íntima, formosamente obscena,
e as tuas mãos são pálidas
latejando nela
e a tua pele amarela, queimada do tabaco,
que lembra agora
a luz artificial da iluminação.

Volto para ti. Meu coração de mocho
recebem-no as sua pernas.
Como testemunhos silenciosos da história
acaricio as cúpulas perdidas,
palácios em ruínas,
fontes velhas
que recebem a lua
onde vão esconder-se os últimos abraços.
Verdes no cansaço
de todas as esquinas
esta cidade fita-me com os teus olhos de musgo,
surpreende-me tranquila
de amor e provoca-me.

Amanhece
violaceamente um dia
que as ruas repartem com a chuva.
A solidão respira para lá
das gruas
e o meu corpo estende-se
numa luz em cio que adivinha
os lábios da serra,
a roupa nas torres de Granada.

A madrugada deixa
rastos de penumbra entre as mãos.

Oiço
uma voz que amanhece. Lentamente
os telhados sorriem cada vez mais extensos,

E assim,
como uma onda,
de entre a nuvem aberta de todos os subúrbios,
esta cidade surge nas alamedas,
sob os picos mais altos
onde a neve aguarda
que suba o mar, que nasça a maré.

Luis García Montero, Espanha (n. 1958), traduzido por Nuno Dempster.

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Problemas de Geografia Pessoal

Nunca sei despedir-me de ti, fico sempre
com o frio de alguma palavra que não disse,
com um mal-entendido a recear,
o vazio de torpe inexistência
que às vezes, gota a gota, se converte
em desesperação.
Nunca sei despedir-me de ti, porque não sou
o que em viagem passa pela gente,
o que vai de aeroporto em aeroporto,
o que olha os automóveis em direcção contrária,
indo para a cidade
onde acabas de chegar.
Nunca sei despedir-me, porque sou
um cego que tenteia pelo túnel
das tuas mãos e lábios quando dizem adeus,
um cego que tropeça nos mal-entendidos
e com essas palavras
que não se sabe articular.
Desterrado do amor,
nunca posso afastar-me de tudo quanto és.
Num vazio de torpe inexistência
vou-me de mim
a caminho do nada.

Luis García Montero, Espanha (n. 1958), traduzido por Nuno Dempster.

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Canção Víbora

Tem paciência comigo.

Porque às vezes o mundo,
a víbora do tempo e do passado,
cabe entre duas palavras.

Se a pele se faz noite,
se as cinzas voltam aos lábios,
cabe entre duas palavras.

É verdade e eu sei-o,
uma estrela apagada que cruza o universo
com o seu punhal de frio.

E rasteja pela vida,
por caminhos sem ninguém, por cidades,
com o seu punhal de esquecimento.

Através do amor,
até mesmo por cima da felicidade,
cabe entre duas palavras.

A víbora do medo,
a víbora do medo derrotado,
o meu calor e o frio dela.

E fica no peito,
aninhada na sombra, até ao amanhecer.
Tem paciência comigo.

Porque o mundo é assim e eu venho ferido,
tem paciência comigo.

Luis García Montero (n. 1958), Espanha,
tradução de Soledade Santos

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