Retratos

Hoje a mãe veio visitar-me. Não
nos víamos há anos. Porque é que nunca
telefonaste? perguntei. As tuas janelas estão imundas, respondeu.
Eu sei, eu sei. É do pó e da chuva. Ela ficou do lado de fora.
Eu no interior, e cada um de nós limpou assim, de olhos nos olhos,
esfregando a toalha branca no rosto um do outro, eliminando
horas, anos. É como quando estavas
dentro de mim, disse ela. O quê? perguntei,
embora tenha entendido. Mais tarde, já em casa, ela tinha o cheiro
da neve a derreter. Ficámos de mãos dadas diante do quadro da janela,
a contemplar o sol de Dezembro, a ver os pinheiros em chamas.

Mark Irwin (n. 1953), EUA, tradução de Soledade Santos

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