Ao Fracasso

Não vens de forma dramática, com dragões
Que se empinam e erguem a minha vida entre as garras
E me atiram esquartejado para junto das carroças,
Os cavalos em pânico; nem como uma cláusula
visivelmente preparada para lembrar o que pode ser perdido,
Que despesas de bolso devem ser suportadas
Em gastos extraordinários; nem como um fantasma gélido
Que é visto, certas manhãs, a correr por um relvado.

É nestas tardes sem sol que descubro
Teres-te instalado no meu espaço como um aborrecimento.
Os castanheiros endureceram de silêncio. Estou
Ciente de que os dias passam mais rápido que antes,
O cheiro a bolor também. E quando ficam para trás
Parecem ruínas. Estiveste aqui algum tempo.

Philip Larkin, Inglaterra (1922-85), tradução de Nuno Dempster

Traduzido para aqui.

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O Mundo Literário (I)

O MUNDO LITERÁRIO

“Finalmente, depois de cinco meses da minha vida durante os quais não consegui escrever nada que me satisfizesse, e disso nenhum poder há-de compensar-me…”

Meu caro Kafka,

Quando estiveres cinco anos sem escrever, não cinco meses,
Cinco anos com uma força irresistível e encontrares um objecto
                                               [inamovível mesmo no teu umbigo,
Então saberás o que é depressão.

Philip Larkin, Inglaterra (1922-85), tradução de Nuno Dempster

Nota: a epígrafe pertence ao Diário de Franz Kafka.

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A GARRAFA ESVAZIA-SE

A garrafa esvazia-se cerca da uma;
às duas o livro está fechado;
às três, os amantes jazem separados,
esgotado o amor e o seu comércio ;
e agora o relógio luminoso
mostra que passa das quatro,
altura da noite em que ventos errantes
agitam a escuridão.

E eu estou farto de ver se durmo,
tão farto que posso quase acreditar
que o rio silencioso que flui da caverna
não é forte nem fundo;
apenas uma imagem fantasiada de metáfora.
Eu gosto e espero pela manhã, e os pardais,
os primeiros passos que descem a rua por varrer,
vozes das raparigas com cachecóis pela cabeça.

Philip Larkin, Inglaterra (1922-85), tradução de babel

THE BOTTLE IS DRUNK OUT

The bottle is drunk out by one;
At two, the book is shut;
At three, the lovers lie apart,
Love and its commerce done;
And now the lumious watch-hands
Show after four o’clock,
Time of night when straying winds
Trouble the dark.

And I am sick for want of sleep;
So sick, that I can half-believe
The soundless river pouring from the cave
Is neither strong, nor deep;
Only an image fancied in conceit.
I like and wait for morning, and the birds,
The first steps going down the unswept street,
Voices of girls with scarves around their heads.

Philip Larkin

Quer

Para lá de tudo isto, a vontade de estar só:
Não obstante o céu escuro cresce com os seus apelos
Não obstante seguimos as instruções impressas do sexo
Não obstante a família é fotografada sob o mastro da bandeira —
Para lá de tudo isto, a vontade de estar só.

No fundo de tudo, o desejo de esquecimento urge:
Apesar das tensões engenhosas do calendário,
O seguro de vida, os rituais da fertilidade programada,
A penosa aversão dos olhos pela morte —
No fundo de tudo, o desejo de esquecimento urge.

Philip Larkin, Inglaterra (1922-85), tradução de Nuno Dempster

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