Vitória Relâmpago

O pássaro cava a terra,
A serpente semeia,
A morte aprimorada
Exalta a colheita.

Plutão no céu!

A explosão em nós,
Ou tão só em mim.
Louco e surdo, como poderia sê-lo mais?

Sem eu substituto, sem rosto mutável, sem estação para a chama, sem estação para a sombra!

Com a neve lenta chegam os leprosos.

De repente, o amor, semelhante ao terror,
Com um golpe inaudito detém o incêndio, restaura o sol, reconstrói a Amiga.

Nada anunciava uma existência tão forte!

René Char (1907-1988), França, tradução de Soledade Santos

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J’habite une douleur

Não entregues o cuidado de governar o coração a essas ternuras semelhantes ao outono do qual imitam o ritmo plácido e a agonia afável. O olhar enruga-se precocemente. O sofrimento conhece poucas palavras. É melhor que te deites sem fardos: sonharás com o futuro e a cama ser-te-á leve. Sonharás que a tua casa não tem vidros. Estás impaciente para te unires ao vento, ao vento que numa noite percorre um ano. Outros cantarão a encarnação melodiosa, a carne que não personifica senão o feitiço da ampulheta. Tu condenarás a gratidão que se repete. Mais tarde, identificar-te-ão a um qualquer gigante desintegrado, senhor do impossível.

E no entanto.

O que fizeste apenas aumentou o peso da tua noite. Voltaste à pesca nas muralhas, à canícula sem verão. Estás furioso contra o teu amor no centro de uma conivência aflita. Idealizas a casa perfeita que nunca verás edificada. Para quando a safra do abismo? Mas tu vazaste os olhos do leão. Tu julgas ver a beleza passar por cima das lavandas negras…

O que é que te ergueu, ainda uma vez, um pouco mais alto, sem te convencer?

Não há morada pura.

René Char (1907-1988), França, tradução de Soledade Santos

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Fizeste bem em partir, Arthur Rimbaud!

Fizeste bem em partir, Arthur Rimbaud! Os teus dezoito anos rebeldes à amizade, à malevolência, à estupidez dos poetas de Paris, tal como ao zumbir de abelha estéril da tua família meio louca das Ardenas; fizeste bem em lançá-los todos aos quatro-ventos, em submetê-los à lâmina da sua precoce guilhotina. Tiveste razão em trocar os bulevares dos ociosos, os bares dos mija-rimas pelo inferno das bestas, pelo comércio dos manhosos e os bons dias dos simples.

Este impulso absurdo do corpo e da alma, esta bala de canhão que atinge o alvo, fazendo-o explodir, isso sim, é a vida de um homem! Não se pode, saído da infância, estrangular indefinidamente o próximo. Se os vulcões pouco mudam de lugar, a lava percorre o grande vazio do mundo e concede-lhe virtudes que cantam nas suas chagas abertas.

Fizeste bem em partir, Arthur Rimbaud! Alguns de nós acreditam sem provas na felicidade possível contigo.

René Char (1907-1988), França, tradução de Soledade Santos
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O CANHOTO

Não serve de consolo caminhar com uma mão na nossa, a arriscada florescência da carne de uma mão.
O obscurecimento da mão que nos aperta e nos conduz, inocente também, a olorosa mão em que juntamos e guardamos haveres não nos evita a ravina, o espinho, o fogo precoce, o cerco dos homens, essa mão preferida a todas as outras, mas subtrai-nos à duplicação da sombra, ao dia da noite. Ao dia brilhando por cima da noite, franqueado o seu limiar de agonia.

René Char, França, tradução de Soledade Santos

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A FACÇÃO DO SILÊNCIO

As pedras apertaram-se na muralha e os homens viveram do musgo das pedras. A noite profunda andava armada e as mulheres não davam à luz. A ignomínia tinha o aspecto de um copo de água.

Eu uni-me à coragem de alguns seres, vivi violentamente, sem envelhecer, o meu mistério no meio deles, senti o estremecimento da existência de todos os outros, como um barco incontinente vogando fundos compartimentados.

René Char, © tradução de Soledade Santos

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