A mulher de Lot

Talvez tenha olhado para trás levada pela curiosidade.
Mas posso ter tido outras razões.
Olhei para trás porque me custou deixar a taça de prata.
Por distração, ao atar o cordão da sandália.
Para não ter de continuar a fitar a nuca austera
do meu marido, Lot.
Pela súbita certeza de que se eu morresse,
ele não se deteria.
Pela natural desobediência dos humildes.
Para ver se alguém nos perseguia.
Levada pelo silêncio, julgando que Deus mudaria de ideias.
Já as nossas duas filhas se afastavam para lá da colina.
Senti a velhice em mim. A desolação.
A inutilidade da viagem. Sonho.
Olhei para trás ao colocar a trouxa no chão.
Olhei para trás, preocupada com o passo seguinte.
No meu caminho apareceram serpentes,
aranhas, ratos do campo e filhotes de abutre.
Nem bons nem maus, simples viventes,
agitando-se todos, arrastados por um medo colectivo.
Olhei para trás por solidão.
Por vergonha de fugir às escondidas.
Com vontade de chorar, de regressar.
Ou porque só então se levantou o vento,
me despenteou o cabelo e agitou o vestido.
Senti que me conseguiam ver das muralhas de Sodoma
E que se riam de mim, sem parar.
Olhei para trás cheia de raiva.
Para gozar plenamente a ruína da cidade.
Olhei para trás por todas as razões mencionadas.
Olhei para trás sem querer.
Foi então que uma rocha deslizou sob os meus pés, rangendo.
E que uma fenda de repente me cortou o passo.
Na borda, um rato agitava as patas dianteiras.
E então ambos olhámos para trás.
Não, não. Continuei a correr, a rastejar, a trepar
até que a escuridão caiu do céu,
e com ela cascalho ardente e aves mortas.
Sem fôlego, várias vezes perdi o equilíbrio.
Se alguém me visse, julgaria que dançava.
É possível que os meus olhos estivessem abertos.
Que tenha caído contemplando a cidade.

Wislawa Szymborska, Polónia (n. 1923), tradução de Soledade Santos, a partir da versão de Gerardo Beltrán e Abel A. Murcia

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A primeira fotografia de Hitler

E quem é este menino, nos seus cueirinhos?
Olha, mas é o Adolfinho, o filho dos Hitler!
Talvez venha a ser doutor em leis?
Ou tenor da ópera de Viena?
E de quem é esta mãozinha, esta orelhinha, estes olhinhos, o narizito?]
De quem é a barriguinha cheia de leite? Ninguém sabe.
Virá a ser tipógrafo, médico, comerciante, sacerdote?
E até onde o levarão estes airosos pezinhos, até onde?
Até à horta, à escola, à oficina, à boda
com a filha do presidente da câmara, talvez?

Anjinho, amorzinho, tesouro, coração,
quando há um ano veio ao mundo,
não faltaram sinais no céu e na terra:
um sol de primavera, gerânios nas janelas,
música de realejo ao portão,
um presságio favorável envolto em fino papel cor de rosa.
Antes do parto, a mãe teve um sonho profético:
ver uma pomba em sonhos – são boas novas;
apanhá-la nas mãos – chegará alguém há muito aguardado.
Toc toc, quem é? Assim bate o coração do Adolfinho.

Chupeta, fralda, babete, guizo,
graças a Deus o menino é são, batamos na madeira,
parece-se com os pais, com um gatinho no cesto,
com todos os meninos nos álbuns de família.
Ah, não vamos agora pôr-nos a chorar, pois não?
Olha o passarinho, olha, o fotógrafo vai soltá-lo.
Estúdios Klinger, rua Graben, Braunen.
Braunen não é uma grande cidade, mas é decente,
com sólidas empresas, vizinhos amistosos,
cheiro a bolo fintado e a sabonete.
Não se ouvem os latidos dos cães nem os passos do destino.
O professor de história curva o pescoço
e boceja sobre os seus cadernos.

Wislawa Szymborska, Polónia, 1923
tradução de Soledade Santos, a partir da versão de Gerardo Beltrán e Abel A. Murcia

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