Sou criança e livre

amina-said

sou criança e livre
de morar nos domingos eternos
sol pousado no horizonte
na claridade de todas as coisas
a terra contempla as estações
não tenho lugar nem morada
a vida está em toda parte e em lugar nenhum

na cisterna do pátio a avó tira
água para o manjericão e a hortelã
esmaga o sal e as especiarias
trava o seu combate diário com a realidade
a brisa enfuna as riscas da cortina
o candeeiro ainda está aceso
do outro lado brinco com as sombras

nos jardins do meu pai
as árvores dão frutos antigos
sussurram na linguagem dos pássaros
a água do poço canta nos sulcos
sob os meus passos nascem caminhos de areia
vivo na inocência do dia
puro começo sem antes nem depois

saio de uma casinha construída como um barco
e deixo-me levar pela emoção azul
um bailado de cavalos marinhos aflora
as estrelas caídas dos céus
nos rochedos florescem ouriços
algas cintilam nos meus pulsos
só o instante vive naquilo que contemplo

sou criança e livre
não tenho lugar nem morada
vasto é o horizonte quando o mundo
inteiro é um poema
dia pleno na terra
a noite ainda não tinha sido criada
e eu ergo-me sobre todos os tempos

Amina Saïd, Tunísia (n. 1953), tradução de Soledade Santos

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À sombra das muralhas fendidas
as estátuas lapidadas pela poeira
erguem-se no oblívio

Por entre os rasgões do céu
brilha o labirinto dos ventos
Os caminhos da ausência somem-se pelas arcadas do tempo
e reaparecem à superfície nas vinhas

Alheias à desordem do mundo
vindas de um passado sem idade
reinam as colunas deslumbradas

Albert Ayguesparse (1900-1996), Bélgica, tradução de Soledade Santos

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Democracia

 

dorianne-laux

Quando temos frio – Novembro, as ruas geladas e só nos cruzamos
com sem-abrigo, anoraques e sacos do lixo convertidos em ponchos –
há sempre alguém na cabine telefónica, inclinado sobre o receptor,

expelindo germes de inverno, os lábios inchados, as faces gretadas, no último
telefonema exausto do dia. Continuamos a andar para manter o frio
à distância, demasiado frio para aguardar o autocarro, demasiado deprimente a ideia

de entrar naquela luz azul, de encarar os olhos gelados que nos observam
enquanto escolhemos o assento: o homem com uma só perna, cujas muletas
batem no vidro sujo da janela, a mulher com a bolsa apertada ao peito

como se fosse uma criança morta, o rapaz, borbulhento, taciturno, de cabeça
rapada, uma suástica gravada na barba por fazer, e que nos olha do alto.
Por isso embrenhamo-nos no frio que bem conhecemos: o vento, lâmina indiferente,

familiar, as folhas de ouro amontoadas pelas sarjetas. Temos casa,
nós, uma casa com aquecimento a gás, banho com água corrente.
Cartão de crédito, dinheiro. Podíamos apanhar um táxi, se aparecesse algum.

E então compreendemos porque é que as pessoas se juntam aos Republicanos: Tirem 
esse cão da rua. Removam o cuspo e os graffiti. Prendam essas pessoas amontoadas 
nos degraus da igreja. Se não fossem elas, podíamos acreditar em Deus,

na liberdade, o autocarro havia de aparecer, abrir as portas, o motorista
no seu uniforme bege, de calças vincadas, boné garboso: Olá, menina, cuidado 
com o degrau. Mas não somos republicanos. Estamos apenas cansados, esfomeados,

queremos sair do frio. Então desistimos, voltamos, entramos na fila atrás
do antigo soldado de ar encardido que leva o vinho escondido debaixo do casaco verde,
traz na mão os seus 85 cêntimos, sobe os degraus no ritmo lento que lhe convém,

larga as moedas na caixa e espera que elas caiam pela ranhura, senta-se
na retaguarda e acomoda o corpo no vinil manchado, para sonhar,
enquanto os estilhaços no seu joelho começam a aquecer e a perna boa

se estende para a coxia. E também nós dormitamos ao lado da rapariga que não
arranjou lugar sentada e que escuta música no seu walkman, bate com as botas
num ritmo que não conseguimos ouvir, mas que podemos seguir – vendo-a abanar

a cabeça e esboçar um gesto de dança com a mão – e sentir à medida
que o autocarro pára nas luzes vermelhas dos semáforos com um longo chiado,
travando, sacolejando, para em seguida voltar a estrondear, a chocalhar.

Dorianne Laux, EUA (n. 1950), tradução de Soledade Santos

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UVAS MARINHAS

derek-walcott

Essa vela que se inclina para a luz,
cansada de ilhas,
uma escuna que avança para o Caribe

rumo a casa, poderia ser Ulisses,
confinado ao mar Egeu;
esse pai e marido ansiado,

sob as vinhas ácidas e nodosas, é como
o adúltero que ouve o nome de Nausica
em cada grito de gaivota.

Isto não traz paz a ninguém. A velha guerra
entre obsessão e responsabilidade
nunca acaba e tem sido sempre a mesma

para o vagabundo dos mares ou para o que na praia
agora calça as sandálias e regressa a casa,
desde que Tróia exalou a última chama,

e a pedra do gigante cego agitou os fundos
de cuja vaga os grandes hexâmetros subiram
para findar em exausta rebentação.

Os clássicos podem consolar. Mas não o bastante.

Derek Walcott, Santa Lucía, Caribe (n.1930), tradução de Soledade Santos

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Regresso a um lugar iluminado por um copo de leite

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Noite dentro as nossas mãos deixam o trabalho.
Repousam abertas com rastos de animais
Que atravessam a neve fresca.
Não precisam de ninguém. Rodeia-as a solidão.

À medida que se aproximam, e palpam,
São como dois pequenos regatos
Que ao entrarem num rio largo
Sentem a atração do mar distante.

O mar é um aposento remoto no tempo
Iluminado pelos faróis de um carro que passa.
Um copo de leite cintila sobre a mesa.
Só tu podes trazê-lo até mim.

Charles Simic (Jugoslávia, n. 1938), tradução de Soledade Santos

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A Lição das Trevas

Sob o silêncio das pedras
A cidade sonha sobreviver.
O céu árido brilha mais alto.
Para lá do antigo pavor
A memória secreta, a alegria
Com a obscura paciência do casulo.
Entre duas guerras a erva torna a crescer,
A chuva dorme nas cisternas,
O homem esquece a morte,
O amor reencontra a sua linguagem.
A cada saída do labirinto,
O mundo vem nutrir-se
Do rumor eterno do mar.

Albert Ayguesparse, Bélgica, 1900-1996, tradução de Soledade Santos

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NA BIBLIOTECA

Para Octávio

Há um livro chamado
Dicionário dos anjos.
Ninguém o folheou nestes cinquenta anos.
Eu sei, porque ao fazê-lo,
A capa rangeu e as páginas
Fragmentaram-se. Ali descobri
Que em tempos foram os anjos
Tão numerosos como as moscas.
O céu do crepúsculo ficava cheio deles.
Tínhamos de acenar com as duas mãos
Para os espantar.

Agora o sol brilha
Através das janelas altas.
A biblioteca é um local tranquilo.
Anjos e deuses amontoam-se
Em livros escuros que ninguém abre.
O grande segredo repousa
Nalguma prateleira por onde Miss Jones
Passa diariamente na sua ronda.
Ela é muito alta, por isso
Põe a cabeça de lado como se escutasse.
Os livros sussurram.
Eu não oiço nada, mas ela sim.

Charles Simic (Jugoslávia, n. 1938), tradução de Soledade Santos

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