Democracia

 

dorianne-laux

Quando temos frio – Novembro, as ruas geladas e só nos cruzamos
com sem-abrigo, anoraques e sacos do lixo convertidos em ponchos –
há sempre alguém na cabine telefónica, inclinado sobre o receptor,

expelindo germes de inverno, os lábios inchados, as faces gretadas, no último
telefonema exausto do dia. Continuamos a andar para manter o frio
à distância, demasiado frio para aguardar o autocarro, demasiado deprimente a ideia

de entrar naquela luz azul, de encarar os olhos gelados que nos observam
enquanto escolhemos o assento: o homem com uma só perna, cujas muletas
batem no vidro sujo da janela, a mulher com a bolsa apertada ao peito

como se fosse uma criança morta, o rapaz, borbulhento, taciturno, de cabeça
rapada, uma suástica gravada na barba por fazer, e que nos olha do alto.
Por isso embrenhamo-nos no frio que bem conhecemos: o vento, lâmina indiferente,

familiar, as folhas de ouro amontoadas pelas sarjetas. Temos casa,
nós, uma casa com aquecimento a gás, banho com água corrente.
Cartão de crédito, dinheiro. Podíamos apanhar um táxi, se aparecesse algum.

E então compreendemos porque é que as pessoas se juntam aos Republicanos: Tirem 
esse cão da rua. Removam o cuspo e os graffiti. Prendam essas pessoas amontoadas 
nos degraus da igreja. Se não fossem elas, podíamos acreditar em Deus,

na liberdade, o autocarro havia de aparecer, abrir as portas, o motorista
no seu uniforme bege, de calças vincadas, boné garboso: Olá, menina, cuidado 
com o degrau. Mas não somos republicanos. Estamos apenas cansados, esfomeados,

queremos sair do frio. Então desistimos, voltamos, entramos na fila atrás
do antigo soldado de ar encardido que leva o vinho escondido debaixo do casaco verde,
traz na mão os seus 85 cêntimos, sobe os degraus no ritmo lento que lhe convém,

larga as moedas na caixa e espera que elas caiam pela ranhura, senta-se
na retaguarda e acomoda o corpo no vinil manchado, para sonhar,
enquanto os estilhaços no seu joelho começam a aquecer e a perna boa

se estende para a coxia. E também nós dormitamos ao lado da rapariga que não
arranjou lugar sentada e que escuta música no seu walkman, bate com as botas
num ritmo que não conseguimos ouvir, mas que podemos seguir – vendo-a abanar

a cabeça e esboçar um gesto de dança com a mão – e sentir à medida
que o autocarro pára nas luzes vermelhas dos semáforos com um longo chiado,
travando, sacolejando, para em seguida voltar a estrondear, a chocalhar.

Dorianne Laux, EUA (n. 1950), tradução de Soledade Santos

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UVAS MARINHAS

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Essa vela que se inclina para a luz,
cansada de ilhas,
uma escuna que avança para o Caribe

rumo a casa, poderia ser Ulisses,
confinado ao mar Egeu;
esse pai e marido ansiado,

sob as vinhas ácidas e nodosas, é como
o adúltero que ouve o nome de Nausica
em cada grito de gaivota.

Isto não traz paz a ninguém. A velha guerra
entre obsessão e responsabilidade
nunca acaba e tem sido sempre a mesma

para o vagabundo dos mares ou para o que na praia
agora calça as sandálias e regressa a casa,
desde que Tróia exalou a última chama,

e a pedra do gigante cego agitou os fundos
de cuja vaga os grandes hexâmetros subiram
para findar em exausta rebentação.

Os clássicos podem consolar. Mas não o bastante.

Derek Walcott, Santa Lucía, Caribe (n.1930), tradução de Soledade Santos

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Regresso a um lugar iluminado por um copo de leite

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Noite dentro as nossas mãos deixam o trabalho.
Repousam abertas com rastos de animais
Que atravessam a neve fresca.
Não precisam de ninguém. Rodeia-as a solidão.

À medida que se aproximam, e palpam,
São como dois pequenos regatos
Que ao entrarem num rio largo
Sentem a atração do mar distante.

O mar é um aposento remoto no tempo
Iluminado pelos faróis de um carro que passa.
Um copo de leite cintila sobre a mesa.
Só tu podes trazê-lo até mim.

Charles Simic (Jugoslávia, n. 1938), tradução de Soledade Santos

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A Lição das Trevas

Sob o silêncio das pedras
A cidade sonha sobreviver.
O céu árido brilha mais alto.
Para lá do antigo pavor
A memória secreta, a alegria
Com a obscura paciência do casulo.
Entre duas guerras a erva torna a crescer,
A chuva dorme nas cisternas,
O homem esquece a morte,
O amor reencontra a sua linguagem.
A cada saída do labirinto,
O mundo vem nutrir-se
Do rumor eterno do mar.

Albert Ayguesparse, Bélgica, 1900-1996, tradução de Soledade Santos

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NA BIBLIOTECA

Para Octávio

Há um livro chamado
Dicionário dos anjos.
Ninguém o folheou nestes cinquenta anos.
Eu sei, porque ao fazê-lo,
A capa rangeu e as páginas
Fragmentaram-se. Ali descobri
Que em tempos foram os anjos
Tão numerosos como as moscas.
O céu do crepúsculo ficava cheio deles.
Tínhamos de acenar com as duas mãos
Para os espantar.

Agora o sol brilha
Através das janelas altas.
A biblioteca é um local tranquilo.
Anjos e deuses amontoam-se
Em livros escuros que ninguém abre.
O grande segredo repousa
Nalguma prateleira por onde Miss Jones
Passa diariamente na sua ronda.
Ela é muito alta, por isso
Põe a cabeça de lado como se escutasse.
Os livros sussurram.
Eu não oiço nada, mas ela sim.

Charles Simic (Jugoslávia, n. 1938), tradução de Soledade Santos

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Maridos

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A minha mãe aprecia um homem que trabalhe. Gosta
de ver joelhos enlameados e nódoas de erva ao meu marido.
Ela amava o meu pai, embora ao fim-de-semana
ele dormisse até às nove e nem levantasse
os olhos da página que lia, para afastar os pés
quando ela aspirava por baixo. Aos sábados, o meu marido
cava os buracos para as novas roseiras da minha mãe,
amaciando a terra com turfa e adubo.
Muda as lâmpadas a que ela já não chega
e decifra as entranhas da torradeira.
Já os pés do meu pai levavam-no da cadeira à estante dos livros
e de regresso à cadeira, até que a segunda-feira voltava.
A minha mãe gosta de dizer ao meu marido
sente-se nesta cadeira e ponha os pés para cima.

Pauletta Hansel, Ohio, EUA, tradução de Soledade Santos Continuar a ler

De passagem

Jeanloup Sieff

Quão ligeiro o mel cansado
da luz crepuscular
se faz noite

e o botão se recolhe
em particular mistério
para vir a ser flor

como se quanto existe
existisse para ser perdido
e tornar-se precioso.

Lisel Mueller, EUA (n. 1924), tradução de Soledade Santos
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