Esqueço-me de olhar

A fotografia da minha mãe no seu escritório dos anos 50
anda na minha carteira há vinte anos,
o papel acastanhado foi desbotando
e a borda recortada enrolou-se, depois endireitou-se.

A gola do vestido está discretamente cruzada.
Poderíamos supor que a chamam de longe,
dado o ângulo que o pescoço toma.

Era a primeira da família a apanhar
o autocarro de Claremont
que sobe a colina até à universidade.

A certa altura, durante as aulas na escola de medicina,
os estudantes negros tinham de arrumar as suas coisas
e de abandonar o anfiteatro, caminhando ao longo das filas de carteiras.

Atrás da porta fechada, decorria uma autópsia
e os estudantes negros não deviam ver
a pele branca exposta e cortada.

Sob a faca, sob a pele,
mistério da semelhança
num mundo que definia o modo como preto e branco
podiam olhar-se mutuamente, tocar-se,
a minha mãe olha para trás com uma desenvoltura intacta.

Cada vez que abro a carteira,
lá está ela, tão familiar que me esqueço
de olhar.

Gabeba Baderoo, (n. 1969) África do Sul, tradução de Soledade Santos a partir da versão francesa

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