O TEU SEGREDO

EvaristoCarriego

De tudo te esqueces! Ontem deixaste
aqui em cima do piano, que já nunca tocas,
um pouco da tua alma de menina enferma:
um livro secreto, de ternas memórias.

Íntimas memórias. Abri-o, por descuido,
e descobri, sorrindo, a tua pena mais funda,
o doce segredo que não contarei a ninguém:
a ninguém interessa saber que me nomeias.

… Anda, leva o livro, distraída, cheia
de luz e de sonho. Romântica tonta…
Deixares os teus amores por aí, em cima do piano!
De tudo te esqueces, cabeça de noiva!

Evaristo Carriego, Argentina (1883-1992), tradução de Soledade Santos

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Que dirá o primeiro poema que escrever

I
Que dirá o primeiro poema que escrever
Agora que a mãe morreu.

Este livro envelheceu num instante,
um telefonema da minha irmã.

II
Antes o passado não estava tão distante.
Como o vidro
feito em mil pedaços
a minha biografia
estilhaça-se
a cabeça entende num ápice
a resposta da minha irmã,
saíam depois
palavras da minha boca
eu não as controlavaaideusaideusaideusaideusaideusaideusaideusaideusaideusaideusaideusaideus aideusaideusaideusaideusai

III
Dizer como observo agora a varanda, a planta, o céu

as coisas sem o teu olhar.

IV
Quanto às plantas
sinto algo diferente nas flores.

V
Vem rasgada agora
a felicidade

resiste.

Em sonhos posso abraçar-te.

Florencia Abadi, (n.1979) Argentina, tradução de Soledade Santos

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Que canção sem berço

Que canção sem berço cantarei pelas madrugadas?

Que gritarei às janelas
antes do fogo?

Não quero repetir
gerações de deserto

Escapo-me ao deus das pragas e dos eternos sacrifícios

A canção
O berço
regressam no espelho dos meus sonhos

O balançar feliz
perdura nos meus quadris

Estou viva.

Edith Lomovasky, Argentina (n. 1952), tradução de Soledade Santos

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