À sombra das muralhas fendidas
as estátuas lapidadas pela poeira
erguem-se no oblívio

Por entre os rasgões do céu
brilha o labirinto dos ventos
Os caminhos da ausência somem-se pelas arcadas do tempo
e reaparecem à superfície nas vinhas

Alheias à desordem do mundo
vindas de um passado sem idade
reinam as colunas deslumbradas

Albert Ayguesparse (1900-1996), Bélgica, tradução de Soledade Santos

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A Lição das Trevas

Sob o silêncio das pedras
A cidade sonha sobreviver.
O céu árido brilha mais alto.
Para lá do antigo pavor
A memória secreta, a alegria
Com a obscura paciência do casulo.
Entre duas guerras a erva torna a crescer,
A chuva dorme nas cisternas,
O homem esquece a morte,
O amor reencontra a sua linguagem.
A cada saída do labirinto,
O mundo vem nutrir-se
Do rumor eterno do mar.

Albert Ayguesparse, Bélgica, 1900-1996, tradução de Soledade Santos

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Insanas histórias da vida

Insanas histórias da vida,
As vozes todas caladas
Resta o som eterno do sangue.

Erguidos sobre os desastres das guerras
Luzem os detritos vãos do mundo,
O céu repleto de fantasmas da aurora.

Escondido no nevoeiro das cidades
O medo desloca as engrenagens do sonho.
Um dedo descodifica a linguagem morse
Das febres profundas,
Ladainha dos oráculos perdidos.

Tudo será reconstruído sob os nossos passos
Ao grito único da manhã
E as ruínas iluminar-se-ão de madrugada.

Madrugada, primeira e dilacerante madrugada
Que do nada constrói o dia.

Albert Ayguesparse (Bélgica, 1900-1996), tradução de Soledade Santos

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