Não me parece nem bem nem mal

Acredito que às vezes nos observam
pela frente por trás pelos lados
uns olhos rancorosos de galinha
mais terríveis que a água podre das grutas
incestuosos como os olhos da mãe
que morreu no patíbulo
pegajosos como um coito
como a gelatina que os abutres devoram
acredito que hei-de morrer
com as mãos afundadas no lodo dos caminhos
acredito que se me nascesse um filho
ele ficaria a olhar eternamente
as bestas que copulam ao entardecer.

Luís Buñuel, Espanha, 1900-1983, traduzido por Nuno Dempster.

 

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Garças

jac

As garças procuram dias claros
para voar nos binóculos
que as observam. Sobrevoam
a baixa altura o bosque
e planam ao longo das margens,​
perto dos juncos, passe-partout entre moldura
e desenho.

Submergem até meio
das pernas e o bico inteiro
nas águas, avançam
devagar, traçam círculos
perfeitos à superfície
e provocam um leve chapinhar
que só os silêncios do rio
escutam quando o leito
confunde o que flui

com o que permanece.
E em tamanha quietude
imprimem no ar ameno
o ronco destemperado
do seu grasnido. Nada se compreende
então. Assim actua
a realidade.

José Ángel Cilleruelo, Barcelona (n. 1960), tradução de Soledade Santos (primeiro publicada no Poesia, vim buscar-te

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Façamos uma limpeza geral

Bautista

Façamos uma limpeza geral,
vamos deitar fora todas as coisas
que não nos servem para nada, essas
coisas que já não usamos, as que
não prestam senão para ganhar pó,
e em que tentamos nem reparar porque
nos trazem as lembranças mais amargas,
coisas que magoam, que ocupam espaço
e nunca quisemos perto de nós.
Façamos uma limpeza geral,
ou melhor ainda, uma mudança,
deixando para trás todas as coisas
sem lhes tocarmos, sem nos sujarmos,
deixemo-las onde sempre estiveram,
vamo-nos nós embora, vida minha,
e recomecemos a acumular.
Ou vamos deitar fogo a tudo isto,
vamos ficar em paz com essa imagem
das brasas do mundo perante os olhos
e com o coração desabitado.

Amalia Bautista, Espanha (n. 1962), tradução de Soledade Santos

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A si dou uma flor

A si dou uma flor,
se me permite,
um gato e um microfone,
uma chave de fendas totalmente sem uso,
uma janela alegre.
Agite tudo.
Faça um poema
ou qualquer outra coisa.
Leia-a ao vizinho.
Deite-a feliz para a sargeta.
E bom-dia,
não volte nunca mais, saúde
quantos ainda recordem
que vamos apodrecendo de impotência.

José Ángel Valente, Espanha (n. 1929), Tradução de Nuno Dempster

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Aldeia

Este ofício artesanal de cultivar palavras
herdei-o de mestres que partiam
a navegar pela linguagem.
Vi como acenderam o forno e o destino.
Amassaram os verbos,
sonhavam a madeira.
Vi também como o velho falava entre os jovens.

Por isso entendo agora
o que me diz o pescador,
o modo de pensar do camponês,
a voz azul das carpintarias,
os olhos de quem vela uma criança ou um doente.

É a cumplicidade dos ofícios
que trabalham o mundo
e obedecem às leis do dia e da noite,
à luz do sol e da lua.

Do outro lado da aldeia,
estende-se hoje o inferno
de uma língua bárbara:
prémio de risco, bónus, resgates, interesses,
banqueiros, fundos de investimento.
A linguagem tóxica soa
como as trombetas de um exército ignóbil,
como as armas dos assassinos.

Luis García Montero (Espanha, 1958), tradução de Soledade Santos

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Menino atrás da vidraça

Ao entardecer, absorto
Atrás da vidraça, o menino vê
Chover. A luz que se acendeu
Num candeeiro de rua revela
A chuva branca contra o ar escuro.

Sozinho no quarto,
Envolve-o a atmosfera morna,
E a cortina, tapando
O vidro como uma nuvem,
Segreda-lhe feitiços lunares.

Esquece a escola. É tempo
De trégua, com o livro
De histórias e de imagens
Sob a lâmpada, a noite,
O sonho, as horas sem medida.

Vive no coração da sua força terna,
Sem desejo ainda, sem memória,
O menino, sem suspeitar
Que lá fora o tempo aguarda
Com a vida, à espreita.

Na sua sombra a pérola já se forma.

Luis Cernuda (1902-1963), Espanha, tradução de Soledade Santos

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