A ordem legítima é por vezes desumana

Aqueles que partilham lembranças
regressam à solidão, mal o silêncio se instala.
A erva que os afaga desponta da sua fidelidade.

Que dizias tu? Falavas-me de um amor tão longínquo
Que remontava à tua infância.
Tantos estratagemas a memória tece!

René Char (1907-1988), França,
tradução de Soledade Santos

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A PARTIDA DE ANA

Onde ides, Ana? Fazei-mo saber,
E ensinai-me antes de partir
Como farei para que meus olhos calem
A dura pena do coração triste e mártir.
Eu sei como, não tendes de me aconselhar:
Tomareis meu coração, entrego-o;
Levá-lo-eis convosco para o libertar
Do luto que sofreria longe de vós, neste lugar;
E pois que sem coração não vivemos,
Entregar-me-eis o vosso, e então adeus.

Clément Marot (1496-1554), tradução de Soledade Santos

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O CANHOTO

Não serve de consolo caminhar com uma mão na nossa, a arriscada florescência da carne de uma mão.
O obscurecimento da mão que nos aperta e nos conduz, inocente também, a olorosa mão em que juntamos e guardamos haveres não nos evita a ravina, o espinho, o fogo precoce, o cerco dos homens, essa mão preferida a todas as outras, mas subtrai-nos à duplicação da sombra, ao dia da noite. Ao dia brilhando por cima da noite, franqueado o seu limiar de agonia.

René Char, França, tradução de Soledade Santos

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A FACÇÃO DO SILÊNCIO

As pedras apertaram-se na muralha e os homens viveram do musgo das pedras. A noite profunda andava armada e as mulheres não davam à luz. A ignomínia tinha o aspecto de um copo de água.

Eu uni-me à coragem de alguns seres, vivi violentamente, sem envelhecer, o meu mistério no meio deles, senti o estremecimento da existência de todos os outros, como um barco incontinente vogando fundos compartimentados.

René Char, © tradução de Soledade Santos

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