Manhã

Abriu as venezianas. Pendurou os lençóis no peitoril.
                              Mirou o dia.
Um pássaro fixou-a nos olhos. “Estou só”, murmurou.
“Estou viva.”Entrou no quarto. O espelho é também uma janela.
Se saltar dele, cairei nos meus próprios braços.

Yannis Ritsos, Grécia (1909-1990), tradução de Nuno Dempster.

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Verão

Caminhou de uma ponta à outra da praia, radioso
na glória do sol e da sua juventude. De vez em quando
               mergulhava no mar
fazendo brilhar a pele – dourada como a argila.
Era acompanhado pelos murmúrios de admiração
               de homens e mulheres. Alguns passos atrás seguia-o
uma jovem da terra, transportava-lhe devotamente as roupas,
conservando sempre a distância – era incapaz de
               erguer os olhos para o fitar –
um pouco a contragosto
e contente na sua piedosa concentração. Um dia brigaram
e ele proibiu-a de tornar a levar-lhe as roupas. A rapariga
lançou-as à areia – ficou apenas com as sandálias dele;
pô-las debaixo do braço e afastou-se a correr
deixando atrás de si, no calor do sol, a pequena, desajeitada
nuvem dos seus pés descalços.

Yannis Ritsos (1909-1990), Grécia, tradução de Soledade Santos, a partir do castelhano e do inglês

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Vozes

Vozes ideais e queridas
daqueles que morreram ou dos
que se perderam para nós como os mortos.

Às vezes falam-nos em nossos sonhos;
às vezes ouvimo-los no pensamento.

E, com o seu eco, retornam por um instante
ecos da primeira poesia da nossa vida ―
como música que se extingue na noite longínqua.

Konstandinos Kavafis, Alexandria (1863-1933), tradução de Nuno Dempster.

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