O som do machado

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Uma vez uma mulher foi à floresta.
Os pássaros estavam em silêncio. Porquê? perguntou.
Trovoada, disseram-lhe,
a trovoada está a chegar.
Continuou a andar, e as árvores estavam escuras
e agitavam as folhas. Porquê? perguntou.
A grande tempestade, disseram-lhe,
a grande tempestade está a caminho.
Ela chegou ao rio, que corria
sem resposta, atravessou a ponte
e começou a subir
até ao cume, onde os penedos cinzentos
tinham perdido a cor à espera
da catástrofe que os racharia,
e onde ficava a cabana do eremita, do homem sábio
que vivia desde o princípio dos tempos.
Quando chegou à cabana
não havia lá ninguém.
Mas ouviu o machado dele.
E ouviu a floresta expectante.
Não se atreveu a seguir o som
do machado. Estaria
a derrubar a árvore do mundo?
Aquele seria o dia?

Denise Levertov (Inglaterra, 1923-EUA, 1997), tradução de Soledade Santos

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Outono

Um toque de frio na noite de Outono —
Dei uma volta lá por fora
E vi a lua vermelha debruçada sobre uma sebe
Tal um fazendeiro de rosto corado.
Não parei para lhe falar, mas acenei com a cabeça.
Em redor dispunham-se as estrelas melancólicas,
Os rostos brancos como crianças da cidade.

T. E. Hulme, Inglaterra (n. 1883), tradução de Soledade Santos

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Death

Onde encontraram o corpo?
Quem encontrou o corpo?
O corpo estava morto quando foi encontrado?
Como encontraram o corpo?

Quem era o corpo?

Quem era o pai ou filha ou irmão
Ou tio ou irmã ou mãe ou filho
Do corpo abandonado e morto?

O corpo estava morto quando foi abandonado?
O corpo foi abandonado?
Por quem foi abandonado?

O corpo estava nu ou vestido para uma viagem?

Que o fez declarar morto o corpo?
Declarou morto o corpo?
Em que medida conhecia o corpo?
Como sabia que o corpo estava morto?

Lavou o corpo
Fechou-lhe os olhos
Enterrou o corpo
Deixou-o abandonado
Beijou o corpo

Harold Pinter, Inglaterra (1930-2008), traduzido por Nuno Dempster para aqui.

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Como a água começou a actuar

A água queria viver
Foi para o sol regressou a chorar
A água queria viver
Foi para as árvores arderam regressou a chorar
Apodreceram regressou a chorar
A água queria viver
Foi para as flores murcharam regressou a chorar
Queria viver
Foi para o útero encontrou sangue
Regressou a chorar
Foi para o útero encontrou uma faca
Regressou a chorar
Foi para o útero encontrou vermes e podridão
Regressou a chorar, queria morrer

Foi para o tempo foi pela porta de pedra
Regressou a chorar
Foi por todo o espaço em busca do nada
Regressou a chorar, queria morrer

Até não haver mais choro

Jazia no fundo de todas as coisas

Absolutamente esgotada            absolutamente limpa

Ted Hughes, Inglaterra (1930-1998), traduzido por Nuno Dempster.

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Funeral Blues

Parem todos os relógios, desliguem o telefone,
Impeçam o cão de ladrar, dêem-lhe um bom osso,
Silenciem os pianos e com um tambor em surdina
tragam o caixão, deixem vir o cortejo fúnebre.

Que os aviões no alto gemam em círculos
Riscando no céu a mensagem Ele Morreu,
Ponham laços de crepe no pescoço níveo das pombas urbanas,
Deixem os sinaleiros usar luvas negras de algodão.

Ele era o meu Norte, o meu Sul, o meu Leste e Oeste,
A minha semana de trabalho e o meu descanso de domingo,
O meu meio-dia, a minha meia-noite, o meu falar, a minha
[canção;
Pensei que o amor ia durar para sempre, estava errado.

As estrelas agora não são desejadas; apaguem-nas todas,
Arrumem a Lua e desmontem o Sol,
Esvaziem o oceano e varram a floresta;
Porque de nada agora pode vir qualquer bem.

W. H. Auden, Inglaterra (1907-1973), traduzido por Nuno Dempster.

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Ao Fracasso

Não vens de forma dramática, com dragões
Que se empinam e erguem a minha vida entre as garras
E me atiram esquartejado para junto das carroças,
Os cavalos em pânico; nem como uma cláusula
visivelmente preparada para lembrar o que pode ser perdido,
Que despesas de bolso devem ser suportadas
Em gastos extraordinários; nem como um fantasma gélido
Que é visto, certas manhãs, a correr por um relvado.

É nestas tardes sem sol que descubro
Teres-te instalado no meu espaço como um aborrecimento.
Os castanheiros endureceram de silêncio. Estou
Ciente de que os dias passam mais rápido que antes,
O cheiro a bolor também. E quando ficam para trás
Parecem ruínas. Estiveste aqui algum tempo.

Philip Larkin, Inglaterra (1922-85), tradução de Nuno Dempster

Traduzido para aqui.

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O Mundo Literário (I)

O MUNDO LITERÁRIO

“Finalmente, depois de cinco meses da minha vida durante os quais não consegui escrever nada que me satisfizesse, e disso nenhum poder há-de compensar-me…”

Meu caro Kafka,

Quando estiveres cinco anos sem escrever, não cinco meses,
Cinco anos com uma força irresistível e encontrares um objecto
                                               [inamovível mesmo no teu umbigo,
Então saberás o que é depressão.

Philip Larkin, Inglaterra (1922-85), tradução de Nuno Dempster

Nota: a epígrafe pertence ao Diário de Franz Kafka.

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TEOLOGIA

Não, a serpente não
Seduziu Eva com a maçã.
Tudo isso é simplesmente
Uma alteração dos factos.

Adão comeu a maçã.
Eva comeu Adão.
A serpente comeu Eva.
Este é o escuro intestino.

A serpente, entretanto,
Esmói a refeição fora do paraíso ―
Sorrindo ao escutar
O apelo lamurioso de Deus.

Ted Hughes Inglaterra, (1930-98), tradução de Nuno Dempster

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OS MEUS TRISTES CAPITÃES

Um a um aparecem na
escuridão: alguns amigos, e
alguns com nomes
históricos. Que tarde começam a brilhar!
mas antes de se apagarem levantam-se
e encarnam perfeitamente, todo

o passado os envolvendo como um
manto do caos. Eram homens
que, pensei, viveram só para
renovar a força devastadora
gasta em cada convulsão ardente.
Fazem-mo lembrar, agora à distância .

É certo, ainda não descansam,
mas hoje estão de facto
à parte, limpos de fracassos,
retiram-se para uma órbita
e giram com desinteressada
e firme energia, como as estrelas.

Thom Gunn, Inglaterra (1929-2004) tradução de Nuno Dempster

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A GARRAFA ESVAZIA-SE

A garrafa esvazia-se cerca da uma;
às duas o livro está fechado;
às três, os amantes jazem separados,
esgotado o amor e o seu comércio ;
e agora o relógio luminoso
mostra que passa das quatro,
altura da noite em que ventos errantes
agitam a escuridão.

E eu estou farto de ver se durmo,
tão farto que posso quase acreditar
que o rio silencioso que flui da caverna
não é forte nem fundo;
apenas uma imagem fantasiada de metáfora.
Eu gosto e espero pela manhã, e os pardais,
os primeiros passos que descem a rua por varrer,
vozes das raparigas com cachecóis pela cabeça.

Philip Larkin, Inglaterra (1922-85), tradução de babel

THE BOTTLE IS DRUNK OUT

The bottle is drunk out by one;
At two, the book is shut;
At three, the lovers lie apart,
Love and its commerce done;
And now the lumious watch-hands
Show after four o’clock,
Time of night when straying winds
Trouble the dark.

And I am sick for want of sleep;
So sick, that I can half-believe
The soundless river pouring from the cave
Is neither strong, nor deep;
Only an image fancied in conceit.
I like and wait for morning, and the birds,
The first steps going down the unswept street,
Voices of girls with scarves around their heads.

Philip Larkin

Quer

Para lá de tudo isto, a vontade de estar só:
Não obstante o céu escuro cresce com os seus apelos
Não obstante seguimos as instruções impressas do sexo
Não obstante a família é fotografada sob o mastro da bandeira —
Para lá de tudo isto, a vontade de estar só.

No fundo de tudo, o desejo de esquecimento urge:
Apesar das tensões engenhosas do calendário,
O seguro de vida, os rituais da fertilidade programada,
A penosa aversão dos olhos pela morte —
No fundo de tudo, o desejo de esquecimento urge.

Philip Larkin, Inglaterra (1922-85), tradução de Nuno Dempster

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