Sinais

dinicio-morais-1943

Eras a luz toda reunida
num vaso de obsidiana.
Corpo a corpo: espelho perfeito.

Pousei a mão
sobre a tua nudez
e fez-se noite.

Deus, por instantes,
ficou cego
e fomos um, dois, três,
ai, fomos tantos.

De manhã,
achámo-nos órfãos do mundo.

E todos os dias,
como a vida,
começamos do zero.

Dionicio Morales, Mexico (n. 1943), tradução de Soledade Santos

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Tributo ao kitsch

Amiga que partes:
talvez não torne a ver-te.
Ramón López Velarde

Doces formas de te alimentar, esquecimento:
recolher pedrinhas de um rio sagrado
e guardar violetas nos livros
para que esmaeçam ilegíveis.

Beijá-la muitas vezes e em segredo,
no último dia,
antes da terrível separação,
no limiar
do adeus tão romântico
e sabendo
(embora ninguém se atreva a confessá-lo)
que as andorinhas não regressarão.

(Não me perguntes como passa o tempo)

José Emilio Pacheco (México, 1939-2014), tradução de Soledade Santos

 

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Styx

Longo, o que se diz profundo,
é o curso dos rios que não chegam ao mar
e levam nas suas águas todos os nossos mortos.
Profundo, o que se diz longo,
é o rio que não deixa a sua bacia.

Longo e fundo, o que se diz largo,
é o rio que leva a amargura,
invisível sob as ruas,
na dor da mãe que perdeu o filho,
na dor do filho que não conhecerá a mãe.

Longo, fundo, o que se diz invisível,
percorrendo o tempo da vida quotidiana,
à luz dos semáforos,
nos pneus gastos da ira,
rio, invisível rio
que de tão fundo, que de tão longo
parece não chegar e chega.

Longo, o que se diz fundo,
fundo, o que se diz turvo,
amargo é o rio que teremos de atravessar quando anoitecer.

Álvaro Solís, México (n. 1974), tradução de Soledade Santos

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Fúrias

Às vezes – irregular, imprevisível e recorrente – à menor provocação
vem-me uma raiva ancestral, telúrica, inextinguível,
uma raiva Hulk, marca Medeia,
Aquiles: arde Tróia,
arma-se a Grande – literal e metaforicamente – explosão,

FAÍSCAS:
digamos – às vezes – insignificâncias,

digamos: migalhas de pão, fracções de segundo exponencialmente
acumuladas:
atrasos, estamos sempre atrasados, e não há remédio,
pertencer, emaranhados de razões, detenças:
fúrias rolando a toda velocidade pelas minhas entranhas,
fúrias descobertas por meu mal,
piedade, serenidade, paciência, às vezes: respirar
concentrar-me, olhar para o jardim interior,

prender os doberman, como dizer:
acumulações.

Maricela Guerrero, México, tradução de Soledade Santos

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