Estudo de Solidão

Um guardião das condutas de longa distância no deserto?
A equipa de um só homem na fortaleza das areias?
Quem quer que fosse. Ao amanhecer viu  as montanhas rugosas,
Os tons de cinza subindo da escuridão que se dissolvia,
Saturada de violeta, irrompendo em vermelhos fluidos
Que persistiam, imensos, na luz cor de laranja.
Dia após dia. E, sem se dar conta, ano após ano.
Para quem, pensou, este esplendor? Para mim só?
E permanecerá muito além da minha morte.
Que impressão deixará nos olhos de um lagarto? Ou de uma ave migratória?
E se eu sou todos os homens, poderá a humanidade existir sem mim?
Mas ele sabia que não adiantava clamar, ninguém iria salvá-lo.

Czeslaw Milosz (1911-2004), tradução de Soledade Santos

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Despedida

Falo contigo após anos de silêncio,
Meu filho. Verona já não existe.
Esmaguei entre os dedos o pó dos tijolos. Eis o que resta
Do grande amor às cidades natal.

Oiço o teu riso no jardim. E o perfume
Da primavera louca vem pelas folhas molhadas até mim,
Até mim, que sem acreditar em nenhuma força salvadora
Sobrevivi aos outros e a mim próprio.

Se soubesses como é quando de noite
Acordamos de repente e perguntamos
Ao ouvir o coração palpitante: Que mais queres tu,
Ó insaciável? É primavera, canta o rouxinol.

O riso infantil no jardim. A primeira estrela clara
Abre-se acima das colinas fechadas.
E a meus lábios regressa o canto leve,
E de novo sou jovem como antes, em Verona.

Recusar. Recusar tudo. Não é isto.
Não vou ressuscitar nada nem voltar ao passado.

Dormi, Romeu e Julieta, na almofada de penas rasgadas.
Não erguerei das cinzas vossas mãos unidas.
Que o gato visite as catedrais abandonadas
Luzindo a pupila sobre os altares. O mocho
Na abóbada morta construa o ninho.

Na tarde ardente e branca entre ruínas a serpente
Apanhe sol sobre as ervas e no silêncio,
Como um anel resplandecente que cinja o ouro inútil.
Não voltarei. E quero saber o que sobra
Quando declinamos a primavera e a juventude,
Quando rejeitamos a boca carmim
Que na noite sensual
Exala uma onda de calor.

Ao recusarmos o canto e o aroma do vinho,
Os juramentos e as queixas e a noite de diamante,
E o grito das gaivotas que a luz
do sol negro persegue veloz.

Da vida, maçã cortada por uma faca de fogo,
Que semente se salvará?

Acredita em mim, filho, não resta nada.
Só a dor da idade adulta,
O sulco do destino na palma da mão.
Só a dor,
Nada mais.

Czeslaw Milosz (1911-2004), Polónia,  tradução de Soledade Santos a partir da versão de Jan Zych (México, 2011)

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O velho Marx

Tento imaginar o seu último inverno,
Londres húmida e fria, o beijo impossível da neve
nas ruas vazias, a água negra do Tamisa,
as prostitutas enregeladas junto às fogueiras no parque.
À noite, enormes locomotivas choravam algures.
Os trabalhadores no pub falavam tão depressa
que não conseguia entendê-los de maneira nenhuma.
De início, a Europa era mais rica, mais tranquila,
embora os belgas continuassem a martirizar o Congo.
Mas e a Rússia? O seu despotismo? A Sibéria?
À tarde olhava longamente para as portadas.
Não conseguia concentrar-se, copiava antigos trabalhos:
passava o dia a ler o jovem Marx
e em segredo admirava esse autor ambicioso.
Continuava a acreditar na sua fantástica visão,
mas durante breves instantes
receava ter apresentado ao mundo
apenas uma nova forma de desesperança;
então fechava os olhos e só via
a escuridão escarlate das próprias pálpebras.

Adam Zagajewski, Polónia (n. 1945), tradução de Soledade Santos, publicada primeiro na revista Agio.

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A mulher de Lot

Talvez tenha olhado para trás levada pela curiosidade.
Mas posso ter tido outras razões.
Olhei para trás porque me custou deixar a taça de prata.
Por distração, ao atar o cordão da sandália.
Para não ter de continuar a fitar a nuca austera
do meu marido, Lot.
Pela súbita certeza de que se eu morresse,
ele não se deteria.
Pela natural desobediência dos humildes.
Para ver se alguém nos perseguia.
Levada pelo silêncio, julgando que Deus mudaria de ideias.
Já as nossas duas filhas se afastavam para lá da colina.
Senti a velhice em mim. A desolação.
A inutilidade da viagem. Sonho.
Olhei para trás ao colocar a trouxa no chão.
Olhei para trás, preocupada com o passo seguinte.
No meu caminho apareceram serpentes,
aranhas, ratos do campo e filhotes de abutre.
Nem bons nem maus, simples viventes,
agitando-se todos, arrastados por um medo colectivo.
Olhei para trás por solidão.
Por vergonha de fugir às escondidas.
Com vontade de chorar, de regressar.
Ou porque só então se levantou o vento,
me despenteou o cabelo e agitou o vestido.
Senti que me conseguiam ver das muralhas de Sodoma
E que se riam de mim, sem parar.
Olhei para trás cheia de raiva.
Para gozar plenamente a ruína da cidade.
Olhei para trás por todas as razões mencionadas.
Olhei para trás sem querer.
Foi então que uma rocha deslizou sob os meus pés, rangendo.
E que uma fenda de repente me cortou o passo.
Na borda, um rato agitava as patas dianteiras.
E então ambos olhámos para trás.
Não, não. Continuei a correr, a rastejar, a trepar
até que a escuridão caiu do céu,
e com ela cascalho ardente e aves mortas.
Sem fôlego, várias vezes perdi o equilíbrio.
Se alguém me visse, julgaria que dançava.
É possível que os meus olhos estivessem abertos.
Que tenha caído contemplando a cidade.

Wislawa Szymborska, Polónia (n. 1923), tradução de Soledade Santos, a partir da versão de Gerardo Beltrán e Abel A. Murcia

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A primeira fotografia de Hitler

E quem é este menino, nos seus cueirinhos?
Olha, mas é o Adolfinho, o filho dos Hitler!
Talvez venha a ser doutor em leis?
Ou tenor da ópera de Viena?
E de quem é esta mãozinha, esta orelhinha, estes olhinhos, o narizito?]
De quem é a barriguinha cheia de leite? Ninguém sabe.
Virá a ser tipógrafo, médico, comerciante, sacerdote?
E até onde o levarão estes airosos pezinhos, até onde?
Até à horta, à escola, à oficina, à boda
com a filha do presidente da câmara, talvez?

Anjinho, amorzinho, tesouro, coração,
quando há um ano veio ao mundo,
não faltaram sinais no céu e na terra:
um sol de primavera, gerânios nas janelas,
música de realejo ao portão,
um presságio favorável envolto em fino papel cor de rosa.
Antes do parto, a mãe teve um sonho profético:
ver uma pomba em sonhos – são boas novas;
apanhá-la nas mãos – chegará alguém há muito aguardado.
Toc toc, quem é? Assim bate o coração do Adolfinho.

Chupeta, fralda, babete, guizo,
graças a Deus o menino é são, batamos na madeira,
parece-se com os pais, com um gatinho no cesto,
com todos os meninos nos álbuns de família.
Ah, não vamos agora pôr-nos a chorar, pois não?
Olha o passarinho, olha, o fotógrafo vai soltá-lo.
Estúdios Klinger, rua Graben, Braunen.
Braunen não é uma grande cidade, mas é decente,
com sólidas empresas, vizinhos amistosos,
cheiro a bolo fintado e a sabonete.
Não se ouvem os latidos dos cães nem os passos do destino.
O professor de história curva o pescoço
e boceja sobre os seus cadernos.

Wislawa Szymborska, Polónia, 1923
tradução de Soledade Santos, a partir da versão de Gerardo Beltrán e Abel A. Murcia

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