Canção de Amor

Se estivesses a afogar-te, eu iria em tua salvação.
cobria-te com a minha manta e servia -te chá quente.
Se fosse chefe de polícia, prender-te-ia
e fechava-te a sete chaves numa cela.

Se fosses um pássaro, gravaria um disco
e escutaria toda a noite o teu trinar intenso.
Se eu fosse sargento, serias minha recruta
e posso dizer-te que adorarias a instrução.

Se fosses chinesa, aprenderia os idiomas,
queimava uma data de incenso, usaria roupa alegre.
Se fosses um espelho, assaltaria o banho das senhoras,
dar-te-ia o meu batom vermelho e empoava-te o nariz.

Se gostasses de vulcões, eu seria lava
irrompendo sem cessar do meu centro oculto.
E se fosses minha mulher, seria o teu amante,
porque a Igreja é firmemente contra o divórcio.

Joseph Brodsky, ex-URSS, Rússia (1940-1996), traduzido por Nuno Dempster.

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Sozinho com Todos

a carne cobre o osso
e põe-se um cérebro
dentro e
às vezes uma alma,
e as mulheres atiram
jarras contra as paredes
e os homens bebem
de mais
e ninguém encontra o
outro
mas mantêm-se
à procura
seduzindo dentro e fora
da cama.
A carne cobre
o osso e
procura
mais do que
carne.

não há saída
afinal:
fomos todos agarrados
por um destino
singular.

ninguém jamais encontra
o outro.

as lixeiras da cidade enchem-se
os ferros-velhos enchem-se
os manicómios enchem-se
os hospitais enchem-se
os cemitérios enchem-se

nada mais
se enche.

Joseph Brodsky, Rússia (1940-1996), tradução de Nuno Dempster.

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Ab Ovo

No fundo, deveria existir um idioma
em que a palavra”ovo” se reduzisse
apenas a O. O Italiano é o mais próximo,
com uova, claro. É por isso que Alighieri tinha
o ovo como o mais saudável alimento, dividindo a predilecção
com sopranos e tenores, cujo torso em forma de pêra,
afinal, olhando bem, exprime “ópera”.
O mesmo se aplica ao Romântico genuíno, isto é,
a poetas alemães que iniciam quase todos os versos
do mesmo modo que começam o pequeno-almoço,
ou aos igualmente convencidos matemáticos
que chocam o infinito disposto com cautela,
cujos zeros imaculados nunca hão-de quebrar a casca.

Joseph Brodsky, ex-URSS, Rússia (1940-1996), traduzido por Nuno Dempster.

Traduzido para aqui

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Odysseus to Telemachus

Meu querido Telémaco,
                                        A Guerra de Tróia
já findou. Não recordo quem a venceu.
Os Gregos, sem dúvida, só eles deixariam
tantos mortos longe da pátria.
Mas o meu caminho de volta ainda se provou ser longo demais.
Enquanto por lá dissipávamos o tempo,
dir-se-ia que o velho Posídon estendia e ampliava o espaço.

Agora não sei onde estou, que lugar possa ser este.
Tem a aparência de uma vulgar ilha suja,
com arbustos, construções e grandes porcos a grunhir.
Um jardim de ervas daninhas, perto a rainha ou qualquer outra.
Relva e pedras enormes… Telémaco, meu filho!
Para um vagabundo todas as ilhas
se parecem umas com as outras. E as viagens na memória,
contar ondas; os olhos, inflamados dos horizontes do mar,
choram; e a força da água enche os ouvidos.
Não consigo lembrar-me de como a guerra surgiu,
mesmo de quantos anos tens ― não consigo lembrar-me.

Cresce, então, meu Télamaco, cresce forte.
Só os deuses sabem se voltaremos a ver-nos.
Há muito deixaste de ser aquela criança
diante de quem eu guiava os bois com o arado.
Não tivesse sido a artimanha de Palamedes,
ainda viveríamos ambos sob o mesmo tecto.
Mas talvez ele estivesse certo. Longe de mim
estás livre de todas as paixões de Édipo,
e os teus sonhos, meu Telémaco, são inocentes.

Joseph Brodsky, ex-URSS, Rússia (1940-1996), traduzido por Nuno Dempster.

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Aldeias de Pedra

As aldeias de Inglaterra construídas em pedra.
Uma catedral engarrafada na janela de um pub.
Vacas dispersas nos campos.
Monumentos a reis.

Um homem num fato roído pelas traças
vê ao longe um comboio dirigir-se, como tudo aqui, para o mar,
sorri à filha que vai para Este.
Ouve-se um apito.

E o céu sem fim sobre as telhas
cresce mais azul conforme o canto de um pássaro o enche.
E quanto mais claro se ouve o canto,
mais pequeno se torna o pássaro.

Joseph Brodsky, ex-URSS, Rússia (1940-1996), traduzido por Nuno Dempster.

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A MUSA

Quando noite fora aguardo a sua chegada,
Parece que a minha vida se suspende.
Que são honras, juventude ou liberdade
ante a doce hóspede que segura uma flauta?

Ei-la, já entrou em casa. Tira o véu
E observa-me com atenção. Digo-lhe:
«Foste tu quem sugeriu a Dante as páginas
Do Inferno?» E ela responde: «Fui.»

Anna Akhmátova, Rússia (1889-1966), vertido do inglês por Nuno Dempster, com passagem pelo russo online.

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