SER VELHO

800px-Joan_Margarit_i_ConsarnauEntre as sombras dos galos
e dos cães nos pátios e currais
de Sanaüja, abre-se um buraco
que se enche de tempo perdido e água suja
quando as crianças caminham para a morte.
Ser velho é uma espécie de pós-guerra.
Sentados à mesa da cozinha,
a escolher lentilhas
em noites de borralho,
vejo os que me amaram.
Tão pobres que no fim da guerra
tiveram de vender o miserável
vinhedo e aquele frio casarão.
Ser velho é a guerra ter terminado.
É saber onde ficam os refúgios, agora inúteis.

Joan Margarit, Catalunha (n. 1938) tradução de Soledade Santos

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Sem chaves e às escuras

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Era um daqueles dias em que tudo corre bem.
Tinha limpado a casa e escrito
dois ou três poemas que me agradavam.
Não pedia mais nada.
Vim então à rua, despejar o lixo.
Atrás de mim, uma corrente de ar,
e a porta fechou-se.
Fiquei sem chaves e às escuras,
sentindo as vozes dos vizinhos
para lá das suas portas.
É transitório, disse para comigo;
mas também a morte poderia ser assim:
uma rua escura,
uma porta fechada, a chave lá dentro,
o lixo na mão.

Fabián Casas, Argentina (n. 1965), tradução de Soledade Santos

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Férias em família

Quatro semanas de brigas, longe
de casa, chegámos ao mais solitário dos lugares.
Uma cidade ferroviária no oeste. Lembras-te?
Deixei-te no parque de campismo, com as panelas engorduradas,
e disse aos nossos filhos que não me seguissem.
A luz moribunda deixava-me desesperada.
Lancei-me numa corrida trôpega ao longo dos carris,
passando por armazéns com o sol apagado nas janelas,
até chegar ao parque infantil, que cintilava numa clareira.
E aí pus-me a balouçar, elevando-me acima da copa das árvores.
E vi-me a nunca mais regressar, embora
o alento que respirava no bosque silencioso
não fosse outra vida. O sol afundou-se.
Deixei o baloiço imobilizar-se, os meus pés rasparam a terra.
E eu fui sacudida pela lembrança
da menina que sonhara a vida que eu tinha.
Através da raiz escura da noite, voltei a ela.

Judith Slater, USA (n. 1938), tradução de Soledade Santos

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Façamos uma limpeza geral

Bautista

Façamos uma limpeza geral,
vamos deitar fora todas as coisas
que não nos servem para nada, essas
coisas que já não usamos, as que
não prestam senão para ganhar pó,
e em que tentamos nem reparar porque
nos trazem as lembranças mais amargas,
coisas que magoam, que ocupam espaço
e nunca quisemos perto de nós.
Façamos uma limpeza geral,
ou melhor ainda, uma mudança,
deixando para trás todas as coisas
sem lhes tocarmos, sem nos sujarmos,
deixemo-las onde sempre estiveram,
vamo-nos nós embora, vida minha,
e recomecemos a acumular.
Ou vamos deitar fogo a tudo isto,
vamos ficar em paz com essa imagem
das brasas do mundo perante os olhos
e com o coração desabitado.

Amalia Bautista, Espanha (n. 1962), tradução de Soledade Santos

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O TEU SEGREDO

EvaristoCarriego

De tudo te esqueces! Ontem deixaste
aqui em cima do piano, que já nunca tocas,
um pouco da tua alma de menina enferma:
um livro secreto, de ternas memórias.

Íntimas memórias. Abri-o, por descuido,
e descobri, sorrindo, a tua pena mais funda,
o doce segredo que não contarei a ninguém:
a ninguém interessa saber que me nomeias.

… Anda, leva o livro, distraída, cheia
de luz e de sonho. Romântica tonta…
Deixares os teus amores por aí, em cima do piano!
De tudo te esqueces, cabeça de noiva!

Evaristo Carriego, Argentina (1883-1992), tradução de Soledade Santos

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O som do machado

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Uma vez uma mulher foi à floresta.
Os pássaros estavam em silêncio. Porquê? perguntou.
Trovoada, disseram-lhe,
a trovoada está a chegar.
Continuou a andar, e as árvores estavam escuras
e agitavam as folhas. Porquê? perguntou.
A grande tempestade, disseram-lhe,
a grande tempestade está a caminho.
Ela chegou ao rio, que corria
sem resposta, atravessou a ponte
e começou a subir
até ao cume, onde os penedos cinzentos
tinham perdido a cor à espera
da catástrofe que os racharia,
e onde ficava a cabana do eremita, do homem sábio
que vivia desde o princípio dos tempos.
Quando chegou à cabana
não havia lá ninguém.
Mas ouviu o machado dele.
E ouviu a floresta expectante.
Não se atreveu a seguir o som
do machado. Estaria
a derrubar a árvore do mundo?
Aquele seria o dia?

Denise Levertov (Inglaterra, 1923-EUA, 1997), tradução de Soledade Santos

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